sábado, 20 de julho de 2013
O JUDAS CARIOCA
"Não devia escrever sobre Sergio Cabral"
Fernando Gabeira
Eu gostava mesmo era do Sergio Cabral, o pai, que escrevia no Pasquim, o intelectual que conhecia muito de música popular brasileira. Seu filho, ao contrário, parece ter um cérebro de toucinho (tanto que atraiu uma bactéria suína). Sergio Cabral, o pai, se elegeu vereador. Mais adiante conseguiu uma sinecura e saiu de cena. Pagava pra ver a cara dele vendo seu filho sob pressão da massa por ser o corrupto que é.
Sergio Cabral, filho, pegou uma carona na fama do pai e se elegeu. Enquanto fazia campanha vendeu a imagem de ser um político que defendia os velhinhos. Mas depois consolidou sua carreira como um político brasileiro clássico como Ademar de Barros ou Paulo Maluf. Esses tipo de político quando não são oriundos de famílias de ricos, entram na política com uma mão na frente e outra atrás e deixam a vida pública como "milionários", isso quando a taxa de corrupção era mais baixa, hoje com essa taxa começando com 30% e o volume dos negócios, eles quando voltam para a vida privada é na condição de "bilionários", mesmo.
Hoje quando se fala em Sérgio Cabral todo mundo lembra a farra parisiense dos guardanapos brancos na cabeça, dos sapatos de mais de dez mil reais das mulheres e das relações perigosas com Fernandinho CavenDelta. E se prestar mais atenção e puxar o fio de Ariadne vai parar na super-hiper-mega quadrilha do Carlinhos Cachoeira.
Vou concluir sugerindo uma saída honrosa para Serginho. Mas é preciso muita hombridade. RENUNCIE Sergio Cabral Filho!
E deixe instruções para que seu querido vice, o Pezão, faça um bom governo. Pode ser que você consiga repetir o que aconteceu com Collor cujo vice, Itamar Franco, saiu com a popularidade tão em alta que fez seu sucessor, FHC para o bem ou para o mal.
Se não quiser dar uma de João Goulart, resta o caminho do Bashar Al Assad e apostar na repressão. É um caminho perigoso porque violência gera violência.
Quando a reputação de Sergio Cabral, o pai, ainda estava no inconsciente coletivo, Serginho se apresentava como Sergio Cabral Filho. Hoje está tão famoso e seu pai tão esquecido que quando alguém grita FORA CABRAL. Todo mundo sabe quem é.
sábado, 6 de julho de 2013
Ecos do movimento Muda Brasil
ECOS DO MOVIMENTO MUDA BRASIL
1) O pano de fundo. A eterna desigualdade brasileira que vem dos tempos coloniais. O Brasil sempre foi um país rico para os ricos e miserável para os pobres. Desde que nasceu o Brasil sempre foi uma "colônia de banqueiros". E continua sendo.
2) A dolorosa. Até agora não li nada a respeito do prejuízo causado pelas depredações de parte dos manifestantes, pelas paralisações do trânsito em rodovias. Apenas um Shopping Center da Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, reclamou de prejuízo de mais de um milhão de reais apenas por causa de uma dessas manifestações pequenas que impediram o trânsito seguido da ação dos vândalos. Se considerarmos todo o país e todas as manifestações, todos os quebra-quebras creio que a cifra será qualquer coisa na casa de muitos bilhões de reais;
3) Vinte centavos? Hoje a Ana Maria Braga mostrou uma trabalhadora autônoma que vende docinhos. E com ajuda de um contador foi mostrado que ela vendendo cada brigadeiro por 2 reais estava trabalhando no vermelho.
Depois da intervenção do contador ficou acertado que ao preço do brigadeiro seria acrescentado 20 centavos para que a mulher tivesse lucro. Será que uma matéria dessa natureza é gratuita? Alguma indireta?
4) Balas de borracha. Tiro de bala de borracha no olho de uma pessoa eu já tinha visto isso nos conflitos da Intifada. Tiros dados por soldados israelenses acertavam o olho de menino palestino. Vimos isso durante as manifestações que ainda estão aí, a jornalista Giuliana Vallone levou tiro no olho e seu colega, Fabio Braga, tiros no rosto e na virilha (o policial deve ter feito pontaria no sexo do rapaz). Gás lacrimogênio já foi classificado como arma de guerra química, no caso brasileiro matou uma senhora no Pará que nem fazia parte das manifestações. As balas de borracha no olho podem cegar uma pessoa. Está na hora dessas práticas serem questionadas. A própria “militarização” da polícia também está sendo questionada.
5) Algo contra a imprensa? Vários carros da imprensa foram atacados pelos manifestantes em vários estados. Cheguei a pensar se havia algum recado nisso, mas pode ser uma vingança dos próprios vândalos contra aqueles que por função de ofício estão ali para registrar imagens que irão ajudar a polícia a localizá-los. Em todo caso o movimento “Circuito fora do eixo”, dos NINJAS (Narrativas Independentes Jornalismo e Ação) e da POSTV se propõe a ser a “mídia do futuro” baseada em honestidade e ética e livre de condicionamentos comerciais ou políticos.
6) Passeatas pacíficas. Desde cedo ficou claro que os baderneiros não eram presença obrigatória nas manifestações e sim corpos estranhos. Muitas passeatas deram-se em clima de paz, sem quebra-quebra nem incêndios.
7) Passeatas pacíficas inclusive dos pobres. Foi o caso da passeata histórica em que moradores das comunidades da Rocinha e do Vidigal se encontraram na Avenida Niemeyer e se dirigiram à residência de Sérgio Cabral, o governador do Rio de Janeiro. Enquanto o soldado israelense Gilad Shalit esteve seqüestrado pelo Hamas, a família do soldado ficou acampada na frente da residência de Ariel Sharon até que o governo de Israel aceitou trocar o soldado por mil prisioneiros palestinos mantidos nas prisões de Israel. Sergio Cabral usou a polícia militar para retirar os jovens que ficaram acampados na frente do prédio onde ele mora no bairro do Leblon. Cabral se revela menos tolerante que Sharon.
8) Perigo de golpe militar afastado. Diante de tanta gente nas ruas e das cenas de destruição de patrimônio público e privado, a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro por pouco não virou um Reichstag incendiado. O fantasma de uma reação dos militares estava bruxuleando. O secretário de segurança do Rio de Janeiro, Beltrame, chegou a falar em pedir ajuda às Forças Armadas. Wanderley Guilherme chegou a falar em “cerco reacionário nacional e internacional” (uma questão de “segurança nacional” pois não?). Olavo de Carvalho de uma ótica paranóica anticomunista atribuiu tudo ao Foro de São Paulo em aliança com George Soros. Apesar de ininteligível para nós, para ele uma revolução comunista latino-americana está em andamento. Mas como disse uma vez o general Figueiredo o Brasil é uma mesa muito pesada para ser "virada" à toa. O que está havendo no país é um fato novo enigmático que terá uma solução democrática. As instituições democráticas se abrirão para as massas ou serão rasgadas por elas.
9) O gênio da lâmpada. Os meninos do Movimento Passe Livre (MPL) por um golpe de sorte e não um acerto de análise de conjuntura baseada em conhecimento de psicologia social ou de guerra psicológica, acertaram com uma palavra de ordem que atuou como um palito de fósforo aceso num palheiro. Eles não esperavam pela proporção que o incêndio tomaria. E assustados recuaram. A massa estudantil com a adesão do povo segurou a “tocha olímpica da democracia” e continuou.
10) Violência gera violência. As primeiras manifestações foram violentamente reprimidas pela PM. Se o objetivo era esmagar um movimento que talvez viesse a prejudicar a realização da Copa das Confederações, o tiro saiu pela culatra, o movimento aumentou de volume e passou a contar com o apoio da população. Paradoxalmente a repressão deu força às manifestações.
11) Oscar Niemeyer. Sempre pensei nisso. Niemeyer era arquiteto, mas antes disso era um comunista sincero. Tenho pra mim que ele quando desenhou Brasília pensou em uma revolução social, e fez tudo para facilitar o acesso das massas ao interior dos edifícios e até ao teto. Espelhos d’água até a altura dos joelhos, enormes rampas para o acesso das massas e vidros em vez de paredes. Fernando Collor, percebeu isso e qual Luiz XVI anacrônico, não pensou em aprofundar os espelhos d’água e colocar dentro jacarés? A Brasília de Niemeyer é uma anti-Bastilha, é um convite para o assédio das massas ao poder.
12) Executivo, Legislativo e Judiciário. Segundo Luiz Eduardo Soares o Executivo está prestigiado, o Legislativo desprestigiado. O Judiciário é respingado quando se pensa em impunidade.
13) Viva Dilma. Dilma, o Partido dos Trabalhadores e Lula têm sido vítimas de uma sórdida campanha de “fritura” pela Internet. Mas Dilma foi bastante ousada quando respondeu ao movimento Muda Brasil e propôs: a) Um Plano de Mobilidade Urbana; b) 100% da renda do petróleo para a educação; c) Importar milhares de médicos; d) Oxigenar o velho sistema político; e) Tornar as instituições mais transparentes; f) Tornar as instituições mais permeáveis; g) Tornar as instituições mais resistentes aos malfeitos; h) Reforma política democrática; i) Controle dos deputados pelos cidadãos; j) Combate à corrupção; k) Ampliação da Lei de acesso à informação para todos os poderes e instâncias federativas. Podemos criticá-la por ter proposto essas coisas "reagindo" à pressão das massas nas ruas, "fugindo para a frente". Mas todo esse alfabeto de propostas apontam numa única direção MAIS DEMOCRACIA. Chamo a atenção para a proposta de plebiscito sobre a reforma política que levaria a um aumento da conscientização do povo para a questão, daí o alvoroço dos que temem a conscientização das massas.
14) Das reivindicações. Partindo do protesto contra o aumento das passagens de ônibus, a pauta das ruas foi aumentando: a) Não à PEC 37 que queria manietar o Ministério Público; b) Renan fora da presidência do Senado; c) Investigação dos gastos da Copa das Confederações; d) Lei que torna a corrupção crime hediondo; e) Fim do foro especial para os políticos; f) Reforma política; g) Melhorar o sistema de saúde; h) Melhorar a educação com dinheiro do petróleo ou 10% do PIB; i) Tarifa zero para todos (objetivo maximalista do MPL). A reivindicação básica foi do Passe Livre a qual por um processo contagioso inflamou toda a população. O fato é que a pauta das ruas é um conjunto de sinais que precisam ser interpretados pela classe política (enquanto os mecanismos de participação das massas no sistema político não são criados) posto que são caóticos e intuitivos. Por exemplo quanto a “reforma do sistema político” será que o povo que foi às ruas sabe o que é voto distrital? distrital misto? Representação proporcional? O que significa financiamento público de campanhas eleitorais? A reividicação das ruas é algo bem ao gosto do povo brasileiro: “Queremos tudo de bom: melhor educação, saúde, transporte, etc”. Sem esquecer que setores estranhos como a velha direita tentou emplacar reivindicações absurdas como uma "greve geral" para o dia primeiro de julho convocada com três dias de antecedência, quando se sabe que o movimento real dos trabalhadores (todas as centrais sindicais e mais de 70 movimentos populares) aprovaram movimentação visando uma greve geral para o dia onze de julho.
15) Das multidões. As multidões humanas parecem que têm vida, são um ser que pensa e reage. Isso fica claro quando vemos plateias de shows de rock sacudindo os braços, ou a “ola” nas arquibancadas de estádios de futebol. Nesse momento deve funcionar uma sensação de pertencimento, de prazer na ação coletiva, de completude, de superação da angustia fundamental do ser humano “dividido”, “incompleto”. Parece mesmo que o povo brasileiro “acordou”. O exemplo máximo se deu na final da Copa das Confederações no jogo entre o Brasil e a Espanha quando o locutor pediu que o hino fosse encerrado atendendo ao protocolo, mas o coro de 70 mil vozes no Maracanã continuou cantando o hino nacional com toda a força de seus pulmões e corações. “Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor” diz tudo.
16) Quebra-quebra. Hoje no programa Esquenta da Regina Casé estava presente o professor Roberto Mangabeira Unger: Pilatos no Credo? Em determinada altura o professor convida o povo brasileiro a "Botar pra quebrar". Rss. Mais do que já está botando professor?
17) Comando azul. Do jeito que do lado da passeata haviam aqueles que se aproveitavam da concentração de gente para objetivos outros como depredar, incendiar, arrombar e saquear lojas, etc. Do lado da PM teve quem denunciasse que viu soldado da PM quebrando vidro do próprio carro da polícia para jogar a culpa nos manifestantes e uma joalheria ter sido arrombada por PMs. Soldados também aproveitaram a carta branca para reprimir e jogaram bombas de gás nos frequentadores normais da Lapa, local muito distante do teatro de guerra das manifestações.
18) Grupelhos de direita foram à rua com o objetivo de hostilizar o pessoal da esquerda (PT, PSTU, PCB, Sindicalistas, etc,) e tentar instigar os manifestantes contra os "vermelhos". Foram bem sucedidos em alguma medida e depois alardearam que o povo está contra a esquerda. É bem verdade que aquela massa não se sente representada pelo atual sistema politico partidário, mas o "antipartidarismo" foi provocado.
19)Do lado da baderna, dos depredadores, dos pescadores de águas turvas tinha figuras para todo tipo de gosto:
a) anarquistas com o objetivo de criar o caos;
b) grupelhos de direita com o objetivo de agredir a esquerda e instigar populares contra essas organizações (PSTU,PSOL, PCB, Sindicatos etc.);
c) bandidos comuns, desses que praticam arrastões com o objetivo de saquear lojas;
d) traficantes deslocados dos morros pela pacificação promovida pela PM com o objetivo de atacar os PMs;
e) jovens iracundos como um estudante de arquitetura que se empolgam e saem destruindo as coisas;
f) grupos de provocadores pagos quem sabe pelos donos de empresas de ônibus ou de partidos de direita com o objetivo de denegrir a imagem do movimento, ou provocar o endurecimento da repressão.
20) Intelectuais da direita , vendo o povo nas ruas e sem entender nada preferiram insistir em sua concepção reducionista e simplista de que o movimento é conduzido pelo PT (Foro de São Paulo) com objetivo de aplicar um golpe de estado revolucionário;
21) A esquerda cooptada pelo governo também não entendeu nada. Luiz Werneck Viana disse que a UNE assistiu a tudo de camarote e olhando de binóculos;
22) O Anonymous. A imagem presente em todas as manifestações da máscara do Anonymous diz da natureza internética do movimento. De sua horizontalidade organizacional (desligado das instâncias institucionais da democracia representativa) e planetariedade; do seu parentesco com o Occupy Wall Street, os Indignados da Espanha e outros. Mesmo que os contextos sejam diferentes refiro-me à forma de ação.
23) O objeto.Todas as marchas sempre se dirigiam para as sedes dos poderes constituídos: sedes de prefeituras e casas legislativas. O que demonstra que o movimento apesar de descolado da vida pública, dos mecanismos de participação democrática é de lá que espera que saia alguma coisa. Trata-se então de um grande movimento de pressão da sociedade sobre as autoridades;
24) A fúria dos vândalos também se concentrava nas prefeituras e no legislativo. Nesse movimento entravam tanto os humilhados e ofendidos pelo capitalismo brasileiro quanto os mercenários a serviço de objetivos escusos;
25) O quebra-quebra. Com certeza foi o quebra-quebra, bastante destacado pela mídia, que fez as autoridades constituídas (prefeitos, governadores e parlamento) contrairem ao máximo os esfincteres e voltar atrás com os aumentos e acelerar a legislação. Lula e Dilma pressionaram o prefeito Fernando Haddad. Eduardo Paes quando telefonou para Haddad declarou "Eu não aguento mais". O secretário de segurança do Rio de Janeiro, Beltrame, ameaçou com as Forças Armadas. Teve autoridade que pensou em retirar o facebook do ar;
26) O preço das passagens foi apenas o estopim, a gota d'água que fez transbordar o pote das mágoas acumuladas no peito da população sofrida com a má qualidade dos transportes e com a vida cotidiana cheia de adversidades e agora com a volta da carestia;
27) Um minuto de silêncio pelas duas vítimas fatais dessa verdadeira revolução que revolveu o país numa velocidade meteórica. Dona Cleonice Vieira de Morais de 51 anos, de Belém do Pará. Ela era hipertensa e não aguentou respirar o gás jogado pela polícia. E o jovem Marcos Delefrate de 18 anos atropelado por um empresário que investiu o carro contra os manifestantes ferindo 12 pessoas e matando o Marcos;
28) Final. Finalizo com uma segunda citação do professor Werneck Vianna: "As pessoas querem ser reconhecidas, querem que sua dignidade e identidade sejam respeitadas".
29) Portanto. Mais amor!
1) O pano de fundo. A eterna desigualdade brasileira que vem dos tempos coloniais. O Brasil sempre foi um país rico para os ricos e miserável para os pobres. Desde que nasceu o Brasil sempre foi uma "colônia de banqueiros". E continua sendo.
2) A dolorosa. Até agora não li nada a respeito do prejuízo causado pelas depredações de parte dos manifestantes, pelas paralisações do trânsito em rodovias. Apenas um Shopping Center da Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, reclamou de prejuízo de mais de um milhão de reais apenas por causa de uma dessas manifestações pequenas que impediram o trânsito seguido da ação dos vândalos. Se considerarmos todo o país e todas as manifestações, todos os quebra-quebras creio que a cifra será qualquer coisa na casa de muitos bilhões de reais;
3) Vinte centavos? Hoje a Ana Maria Braga mostrou uma trabalhadora autônoma que vende docinhos. E com ajuda de um contador foi mostrado que ela vendendo cada brigadeiro por 2 reais estava trabalhando no vermelho.
Depois da intervenção do contador ficou acertado que ao preço do brigadeiro seria acrescentado 20 centavos para que a mulher tivesse lucro. Será que uma matéria dessa natureza é gratuita? Alguma indireta?
4) Balas de borracha. Tiro de bala de borracha no olho de uma pessoa eu já tinha visto isso nos conflitos da Intifada. Tiros dados por soldados israelenses acertavam o olho de menino palestino. Vimos isso durante as manifestações que ainda estão aí, a jornalista Giuliana Vallone levou tiro no olho e seu colega, Fabio Braga, tiros no rosto e na virilha (o policial deve ter feito pontaria no sexo do rapaz). Gás lacrimogênio já foi classificado como arma de guerra química, no caso brasileiro matou uma senhora no Pará que nem fazia parte das manifestações. As balas de borracha no olho podem cegar uma pessoa. Está na hora dessas práticas serem questionadas. A própria “militarização” da polícia também está sendo questionada.
5) Algo contra a imprensa? Vários carros da imprensa foram atacados pelos manifestantes em vários estados. Cheguei a pensar se havia algum recado nisso, mas pode ser uma vingança dos próprios vândalos contra aqueles que por função de ofício estão ali para registrar imagens que irão ajudar a polícia a localizá-los. Em todo caso o movimento “Circuito fora do eixo”, dos NINJAS (Narrativas Independentes Jornalismo e Ação) e da POSTV se propõe a ser a “mídia do futuro” baseada em honestidade e ética e livre de condicionamentos comerciais ou políticos.
6) Passeatas pacíficas. Desde cedo ficou claro que os baderneiros não eram presença obrigatória nas manifestações e sim corpos estranhos. Muitas passeatas deram-se em clima de paz, sem quebra-quebra nem incêndios.
7) Passeatas pacíficas inclusive dos pobres. Foi o caso da passeata histórica em que moradores das comunidades da Rocinha e do Vidigal se encontraram na Avenida Niemeyer e se dirigiram à residência de Sérgio Cabral, o governador do Rio de Janeiro. Enquanto o soldado israelense Gilad Shalit esteve seqüestrado pelo Hamas, a família do soldado ficou acampada na frente da residência de Ariel Sharon até que o governo de Israel aceitou trocar o soldado por mil prisioneiros palestinos mantidos nas prisões de Israel. Sergio Cabral usou a polícia militar para retirar os jovens que ficaram acampados na frente do prédio onde ele mora no bairro do Leblon. Cabral se revela menos tolerante que Sharon.
8) Perigo de golpe militar afastado. Diante de tanta gente nas ruas e das cenas de destruição de patrimônio público e privado, a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro por pouco não virou um Reichstag incendiado. O fantasma de uma reação dos militares estava bruxuleando. O secretário de segurança do Rio de Janeiro, Beltrame, chegou a falar em pedir ajuda às Forças Armadas. Wanderley Guilherme chegou a falar em “cerco reacionário nacional e internacional” (uma questão de “segurança nacional” pois não?). Olavo de Carvalho de uma ótica paranóica anticomunista atribuiu tudo ao Foro de São Paulo em aliança com George Soros. Apesar de ininteligível para nós, para ele uma revolução comunista latino-americana está em andamento. Mas como disse uma vez o general Figueiredo o Brasil é uma mesa muito pesada para ser "virada" à toa. O que está havendo no país é um fato novo enigmático que terá uma solução democrática. As instituições democráticas se abrirão para as massas ou serão rasgadas por elas.
9) O gênio da lâmpada. Os meninos do Movimento Passe Livre (MPL) por um golpe de sorte e não um acerto de análise de conjuntura baseada em conhecimento de psicologia social ou de guerra psicológica, acertaram com uma palavra de ordem que atuou como um palito de fósforo aceso num palheiro. Eles não esperavam pela proporção que o incêndio tomaria. E assustados recuaram. A massa estudantil com a adesão do povo segurou a “tocha olímpica da democracia” e continuou.
10) Violência gera violência. As primeiras manifestações foram violentamente reprimidas pela PM. Se o objetivo era esmagar um movimento que talvez viesse a prejudicar a realização da Copa das Confederações, o tiro saiu pela culatra, o movimento aumentou de volume e passou a contar com o apoio da população. Paradoxalmente a repressão deu força às manifestações.
11) Oscar Niemeyer. Sempre pensei nisso. Niemeyer era arquiteto, mas antes disso era um comunista sincero. Tenho pra mim que ele quando desenhou Brasília pensou em uma revolução social, e fez tudo para facilitar o acesso das massas ao interior dos edifícios e até ao teto. Espelhos d’água até a altura dos joelhos, enormes rampas para o acesso das massas e vidros em vez de paredes. Fernando Collor, percebeu isso e qual Luiz XVI anacrônico, não pensou em aprofundar os espelhos d’água e colocar dentro jacarés? A Brasília de Niemeyer é uma anti-Bastilha, é um convite para o assédio das massas ao poder.
12) Executivo, Legislativo e Judiciário. Segundo Luiz Eduardo Soares o Executivo está prestigiado, o Legislativo desprestigiado. O Judiciário é respingado quando se pensa em impunidade.
13) Viva Dilma. Dilma, o Partido dos Trabalhadores e Lula têm sido vítimas de uma sórdida campanha de “fritura” pela Internet. Mas Dilma foi bastante ousada quando respondeu ao movimento Muda Brasil e propôs: a) Um Plano de Mobilidade Urbana; b) 100% da renda do petróleo para a educação; c) Importar milhares de médicos; d) Oxigenar o velho sistema político; e) Tornar as instituições mais transparentes; f) Tornar as instituições mais permeáveis; g) Tornar as instituições mais resistentes aos malfeitos; h) Reforma política democrática; i) Controle dos deputados pelos cidadãos; j) Combate à corrupção; k) Ampliação da Lei de acesso à informação para todos os poderes e instâncias federativas. Podemos criticá-la por ter proposto essas coisas "reagindo" à pressão das massas nas ruas, "fugindo para a frente". Mas todo esse alfabeto de propostas apontam numa única direção MAIS DEMOCRACIA. Chamo a atenção para a proposta de plebiscito sobre a reforma política que levaria a um aumento da conscientização do povo para a questão, daí o alvoroço dos que temem a conscientização das massas.
14) Das reivindicações. Partindo do protesto contra o aumento das passagens de ônibus, a pauta das ruas foi aumentando: a) Não à PEC 37 que queria manietar o Ministério Público; b) Renan fora da presidência do Senado; c) Investigação dos gastos da Copa das Confederações; d) Lei que torna a corrupção crime hediondo; e) Fim do foro especial para os políticos; f) Reforma política; g) Melhorar o sistema de saúde; h) Melhorar a educação com dinheiro do petróleo ou 10% do PIB; i) Tarifa zero para todos (objetivo maximalista do MPL). A reivindicação básica foi do Passe Livre a qual por um processo contagioso inflamou toda a população. O fato é que a pauta das ruas é um conjunto de sinais que precisam ser interpretados pela classe política (enquanto os mecanismos de participação das massas no sistema político não são criados) posto que são caóticos e intuitivos. Por exemplo quanto a “reforma do sistema político” será que o povo que foi às ruas sabe o que é voto distrital? distrital misto? Representação proporcional? O que significa financiamento público de campanhas eleitorais? A reividicação das ruas é algo bem ao gosto do povo brasileiro: “Queremos tudo de bom: melhor educação, saúde, transporte, etc”. Sem esquecer que setores estranhos como a velha direita tentou emplacar reivindicações absurdas como uma "greve geral" para o dia primeiro de julho convocada com três dias de antecedência, quando se sabe que o movimento real dos trabalhadores (todas as centrais sindicais e mais de 70 movimentos populares) aprovaram movimentação visando uma greve geral para o dia onze de julho.
15) Das multidões. As multidões humanas parecem que têm vida, são um ser que pensa e reage. Isso fica claro quando vemos plateias de shows de rock sacudindo os braços, ou a “ola” nas arquibancadas de estádios de futebol. Nesse momento deve funcionar uma sensação de pertencimento, de prazer na ação coletiva, de completude, de superação da angustia fundamental do ser humano “dividido”, “incompleto”. Parece mesmo que o povo brasileiro “acordou”. O exemplo máximo se deu na final da Copa das Confederações no jogo entre o Brasil e a Espanha quando o locutor pediu que o hino fosse encerrado atendendo ao protocolo, mas o coro de 70 mil vozes no Maracanã continuou cantando o hino nacional com toda a força de seus pulmões e corações. “Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor” diz tudo.
16) Quebra-quebra. Hoje no programa Esquenta da Regina Casé estava presente o professor Roberto Mangabeira Unger: Pilatos no Credo? Em determinada altura o professor convida o povo brasileiro a "Botar pra quebrar". Rss. Mais do que já está botando professor?
17) Comando azul. Do jeito que do lado da passeata haviam aqueles que se aproveitavam da concentração de gente para objetivos outros como depredar, incendiar, arrombar e saquear lojas, etc. Do lado da PM teve quem denunciasse que viu soldado da PM quebrando vidro do próprio carro da polícia para jogar a culpa nos manifestantes e uma joalheria ter sido arrombada por PMs. Soldados também aproveitaram a carta branca para reprimir e jogaram bombas de gás nos frequentadores normais da Lapa, local muito distante do teatro de guerra das manifestações.
18) Grupelhos de direita foram à rua com o objetivo de hostilizar o pessoal da esquerda (PT, PSTU, PCB, Sindicalistas, etc,) e tentar instigar os manifestantes contra os "vermelhos". Foram bem sucedidos em alguma medida e depois alardearam que o povo está contra a esquerda. É bem verdade que aquela massa não se sente representada pelo atual sistema politico partidário, mas o "antipartidarismo" foi provocado.
19)Do lado da baderna, dos depredadores, dos pescadores de águas turvas tinha figuras para todo tipo de gosto:
a) anarquistas com o objetivo de criar o caos;
b) grupelhos de direita com o objetivo de agredir a esquerda e instigar populares contra essas organizações (PSTU,PSOL, PCB, Sindicatos etc.);
c) bandidos comuns, desses que praticam arrastões com o objetivo de saquear lojas;
d) traficantes deslocados dos morros pela pacificação promovida pela PM com o objetivo de atacar os PMs;
e) jovens iracundos como um estudante de arquitetura que se empolgam e saem destruindo as coisas;
f) grupos de provocadores pagos quem sabe pelos donos de empresas de ônibus ou de partidos de direita com o objetivo de denegrir a imagem do movimento, ou provocar o endurecimento da repressão.
20) Intelectuais da direita , vendo o povo nas ruas e sem entender nada preferiram insistir em sua concepção reducionista e simplista de que o movimento é conduzido pelo PT (Foro de São Paulo) com objetivo de aplicar um golpe de estado revolucionário;
21) A esquerda cooptada pelo governo também não entendeu nada. Luiz Werneck Viana disse que a UNE assistiu a tudo de camarote e olhando de binóculos;
22) O Anonymous. A imagem presente em todas as manifestações da máscara do Anonymous diz da natureza internética do movimento. De sua horizontalidade organizacional (desligado das instâncias institucionais da democracia representativa) e planetariedade; do seu parentesco com o Occupy Wall Street, os Indignados da Espanha e outros. Mesmo que os contextos sejam diferentes refiro-me à forma de ação.
23) O objeto.Todas as marchas sempre se dirigiam para as sedes dos poderes constituídos: sedes de prefeituras e casas legislativas. O que demonstra que o movimento apesar de descolado da vida pública, dos mecanismos de participação democrática é de lá que espera que saia alguma coisa. Trata-se então de um grande movimento de pressão da sociedade sobre as autoridades;
24) A fúria dos vândalos também se concentrava nas prefeituras e no legislativo. Nesse movimento entravam tanto os humilhados e ofendidos pelo capitalismo brasileiro quanto os mercenários a serviço de objetivos escusos;
25) O quebra-quebra. Com certeza foi o quebra-quebra, bastante destacado pela mídia, que fez as autoridades constituídas (prefeitos, governadores e parlamento) contrairem ao máximo os esfincteres e voltar atrás com os aumentos e acelerar a legislação. Lula e Dilma pressionaram o prefeito Fernando Haddad. Eduardo Paes quando telefonou para Haddad declarou "Eu não aguento mais". O secretário de segurança do Rio de Janeiro, Beltrame, ameaçou com as Forças Armadas. Teve autoridade que pensou em retirar o facebook do ar;
26) O preço das passagens foi apenas o estopim, a gota d'água que fez transbordar o pote das mágoas acumuladas no peito da população sofrida com a má qualidade dos transportes e com a vida cotidiana cheia de adversidades e agora com a volta da carestia;
27) Um minuto de silêncio pelas duas vítimas fatais dessa verdadeira revolução que revolveu o país numa velocidade meteórica. Dona Cleonice Vieira de Morais de 51 anos, de Belém do Pará. Ela era hipertensa e não aguentou respirar o gás jogado pela polícia. E o jovem Marcos Delefrate de 18 anos atropelado por um empresário que investiu o carro contra os manifestantes ferindo 12 pessoas e matando o Marcos;
28) Final. Finalizo com uma segunda citação do professor Werneck Vianna: "As pessoas querem ser reconhecidas, querem que sua dignidade e identidade sejam respeitadas".
29) Portanto. Mais amor!
domingo, 4 de janeiro de 2009
terça-feira, 10 de junho de 2008
sexta-feira, 19 de outubro de 2007
O falcão George W Bush
"Falcões" designa nos dias de hoje, aqueles que antigamente se identificavam com a figura do "guerreiro"; e "pombas", aqueles que antigamente se identificavam com a figura do "santo". Por que "santo"? certamente porque antigamente o guerreiro era uma figura de importância fundamental da sociedade. Os guerreiros eram os esteios, os suportes da sociedade, dotados de virtudes inerentes à sua condição - guerreiro era aquele que colocava sua vida em risco em prol da existência do grupo -. Guerreiro era sinônimo de coragem, para dizer o mínimo. E santo como sinônimo de adepto da paz ganhou esse sentido após o advento do cristianismo. Porque entre os pagãos havia até o "deus da guerra".
O fato é que não se usa mais o binômio "guerreiro" versus "santos"; agora é "falcões" contra "pombas".
Sendo que falcão é para satisfazer o cabotinismo dos que amam a guerra. Na verdade a etiqueta que melhor perspegaria neles seria a de ABUTRES! devido ao gosto pelos cadáveres.
O guerreiro de antanho se confundia com a figura do caçador, o mesmo homem que fazia a guerra saia para abater os animais que seriam deglutidos pelo grupo.
Guerreiros e caçadores eram figuras louváveis no tempo do arco e flecha, da lança e do tacape. Hoje em pleno Terceiro Milênio, no tempo das armas atômicas, das armas químicas e biológicas, essas figuras tornaram-se tão anacrônicas e ridículas quanto perigosas.
Nos dias de hoje o cidadão consciente precisa identificar esses mensageiros da morte para afastá-los do poder na hora de votar.
Agora mesmo George W Bush um notório representante do grupo dos abutres está brandindo com a ameaça de uma terceira guerra mundial para justificar uma invasão do Irã.
A ameaça mentirosa das "armas de destruição em massa" não colaria mais.
Está na hora de o povo americano dar um pontapé na bunda desse guerreiro ridículo, antes que o mundo tenha que se unir para fazer isso, uma solução que talvez não funcione mais posto que o Hitler dos dias de hoje conta com armas para destuir o planeta inteiro inúmeras vezes.
O fato é que não se usa mais o binômio "guerreiro" versus "santos"; agora é "falcões" contra "pombas".
Sendo que falcão é para satisfazer o cabotinismo dos que amam a guerra. Na verdade a etiqueta que melhor perspegaria neles seria a de ABUTRES! devido ao gosto pelos cadáveres.
O guerreiro de antanho se confundia com a figura do caçador, o mesmo homem que fazia a guerra saia para abater os animais que seriam deglutidos pelo grupo.
Guerreiros e caçadores eram figuras louváveis no tempo do arco e flecha, da lança e do tacape. Hoje em pleno Terceiro Milênio, no tempo das armas atômicas, das armas químicas e biológicas, essas figuras tornaram-se tão anacrônicas e ridículas quanto perigosas.
Nos dias de hoje o cidadão consciente precisa identificar esses mensageiros da morte para afastá-los do poder na hora de votar.
Agora mesmo George W Bush um notório representante do grupo dos abutres está brandindo com a ameaça de uma terceira guerra mundial para justificar uma invasão do Irã.
A ameaça mentirosa das "armas de destruição em massa" não colaria mais.
Está na hora de o povo americano dar um pontapé na bunda desse guerreiro ridículo, antes que o mundo tenha que se unir para fazer isso, uma solução que talvez não funcione mais posto que o Hitler dos dias de hoje conta com armas para destuir o planeta inteiro inúmeras vezes.
segunda-feira, 24 de setembro de 2007
Uma nova fronteira: a ciência da paz
UMA NOVA FRONTEIRA: A CIÊNCIA DA PAZ
Simon Schwartzman
Pelo menos setenta instituições de tipo científico se dedicam hoje em dia, de maneira exclusiva ou preponderante, aos problemas relacionados com guerra e paz. Este é o resultado de um estudo realizado para a UNESCO pelo Instituto de Pesquisas para a Paz, de Oslo (Peace Research Institute of Oslo - PRIO)(1) evidenciando que já se pode falar, com propriedade, de uma Ciência da Paz, senão o como um resultado adquirido, pelo menos como uma atitude, uma perspectiva e um tipo de orientação em rápido progresso. Destas setenta instituições, trinta e cinco estão nos EEUU e Canadá, vinte e seis na Europa Ocidental, sete na Europa a Oriental e URSS(2), uma na América Latina (México) e uma na Ásia Trinta destas instituições foram criadas depois de 1958, o que mostra bem o caráter recente deste tipo de atividade acadêmica. É quase incrível que quase nada disto se saiba no Brasil, que em geral sempre foi expedito em acompanhar dc perto as atividades intelectuais e científicas do mundo desenvolvido. Mostrar, em suas linhas gerais, o que é esta nova Ciência da Paz, discutir o por quê ela não tem encontrado repercussão em nosso meio, as conseqüências deste fato, tentar abrir algumas perspectivas, este é o objetivo deste artigo. ERA UMA VEZ UMA POMBA BRANCA... Enquanto os meios ligados às ciências sociais no Hemisfério Norte assistem a esta efervescência, o problema da Paz, com tudo o que ele, implica, parece ter caído de moda no Hemisfério Sul, a tal ponto que mostrar-se pacifista chega a ser até vergonhoso em muitos meios. A explicação disto pode estar em parte, no fato de que a palavra Paz - e a inefável pomba branca - parecem haver, se queimado com a história dos movimentos mundiais pró- paz, e suas vicissitudes políticas. Grandemente desenvolvido nos primeiros anos da década de 50, graças ao apoio dos países e partidos comunistas, que lhe davam extensão e força, e de personalidades não comprometidas partidariamente - de Sartre a Bertrand Russel - que lhe davam amplitude, este movimento não foi capaz de subsistir ao impacto da revolução húngara, do conflito árabe-israelita, do conflito indo-chinês e tantas outras crises internacionais nas quais a definição do que significava realmente uma atitude pacifista era função, em geral, de uma tomada de posição com um ou outro bloco. Além do mais, uma das principais reivindicações dos movimentos pró-paz - a convocação de uma reunião de cúpula - foi realizada mais de, urna vez, sem os resultados milagrosos que muitos esperavam. A União Soviética trocou a expressão paz por coexistência pacifica, e os movimentos pró-paz passaram a uma vida latente, dando apenas alguns sinais de vida nas marchas anti-atômicas de Semana Santa na Inglaterra e Alemanha, nas manifestações individuais dos objetores de consciência ao serviço militar, ou ao trabalho científico de tipo militarista. Aos olhos do mundo, o pacifismo transformou-se quase em unia excentricidade de utópicos e sonhadores, quando não simplesmente loucos. Um novo alento ao movimento pró-paz parece ter surgido quando o primeiro morria, com o surgimento na arena internacional dos países da Terceira Força. A conferência de Bandung, abril 1955, marca a entrada destes países na arena mundial. A presença da tradição pacifista da Índia, a autonomia iugoslava e Indonésia, a adolescente revolução chinesa davam a nota principal. Em 1 957, era a inauguração da política chinesa das cem flores, de tão curta vida, mas que parecia indicar que também este país estava entre os que fariam tudo para pôr fim à política dc blocos, causadora da guerra fria. Poucos poderiam prever, àquela época, a situação dos dias atuais, em que os países de Bandung - China e Indonésia à frente - seriam os maiores obstáculos à colaboração que passou a ser o interesse das grandes potências. O conflito indo-chinês - com o afastamento de Krishna Menon, o mais decidido neutralista, do governo indiano - o conflito árabe-israelita, o conflito indonésio - malaio, sem falar na guerra do Vietnam - tudo isto indica que a palavra Paz entra cada vez menos no vocabulário dos países emergentes. Por comunista ou por anti-comunista, por progressista ou reacionário, falar em paz parece significar, de boa vontade, viver em um mundo dos sonhos, de má vontade fazer o jogo do adversário, seja ele qual for. Porque, efetivamente, a palavra paz não é querida em tempos de guerra, a não ser como um instrumento da própria guerra. Combater uma luta muitas vezes implica defender um status quo e, conseqüentemente alinhar-se a um dos lados, ou negar razão a ambos e ser rejeitado pelos dois. E no entanto, para quem não aceita o tipo de raciocínio segundo o qual as guerras não fazem mal aos povos, que poderão depois gozar de períodos pacíficos em que as populações crescerão novamente e que a presença de armas atômicas não altera isso, o problema da paz segue sendo básico. Mais do que uma posição de principio contra a violência, ser pacifista hoje em dia significa partir da hipótese de que a guerra atômica será, simplesmente, o fim. Nenhum artificio de raciocínio pode ocultar o fato de que uma guerra nuclear significaria uma destruição incalculável de vidas e civilização, e ninguém pode afirmar com certeza que a humanidade seria capaz de subsistir biologicamente a ela independentemente das vicissitudes políticas que a palavra paz possa ter sofrido, esta continua a ser a questão fundamental de nossos dias Ser pacifista, hoje, em dia, não pode implicar simplesmente a repetição contínua do "amai-vos uns aos outros." Os conflitos existentes são reais, muitos se dispõem a morrer por eles, e uma máxima abstrata não poderá ter o menor efeito em relação a isto. Ser pacifista implica, antes de tudo, conhecer os problemas que estão à base dos conflitos e tentar encontrar, propor e forçar soluções que reduzem ao mínimo a violência, e afastem ao máximo as possibilidades da catástrofe atômica. Daí que é necessário, ao mesmo tempo, conhecer e agir, uma ciência e uma política da paz POLÍTICA E CIÊNCIA DA PAZ Talvez porque a paz seja um problema mais sentido e desejado para os países desenvolvidos que para os subdesenvolvidos, talvez porque as ciências sociais nos países desenvolvidos estejam mais adiantadas que nos outros, talvez porque nos países desenvolvidos não existem outros grandes problemas urgentes a serem resolvidos, e a presença das armas atômicas é mais concreta - muito provavelmente por todas estas razões - o fato é que a ciência da paz vem se desenvolvendo quase que exclusivamente nestes países. Seria um erro crasso, no entanto, crer que a simples compreensão destes motivos basta para conhecer o sentido e caráter desta nova disciplina, da mesma maneira que conhecer os problemas de infância de Marx nos ensina muito pouco de marxismo. Ainda que condicionada politicamente, a atividade de tipo científico não se reduz à política, e deve ser entendida em si mesma. A melhor maneira de ver em que consiste esta ciência da paz será, exatamente, examinando suas diferenças com a política para a Paz. Esta diferença é uma questão de objetivos imediatos, de grau, de estilo, de base institucional. Como questão de objetivos imediatos, é próprio da atividade política a seleção de alguns slogans ou palavras de ordem relativamente simples, e a mobilização de grandes recursos organizacionais, governamentais, partidários, publicitários, etc., que possam convertê-los em realidade. Colocar o tema da Paz na ordem do dia é uma questão de oportunidade, a ser decidida em termos de tática política, independentemente da estratégia mais geral. É assim que, por exemplo, a política soviética pró-paz tem sido muitas vezes acusada de insincera, com o mesmo tipo de argumento com que muitos afirmam que a atitude chinesa contrária à coexistência pacífica não é, em última análise, uma posição belicista. A atividade científica, em contrapartida, menos capaz de impor soluções a curto prazo, se concentra em uma pluralidade de temas, direta ou indiretamente ligados à consecução de uma ou outra estratégia específica, e procura examinar estas estratégias em detalhe, preocupada menos em impor uma ou outra solução, e mais em examinar estas estratégias em detalhe, conhecer os mecanismos de conflito e soluções pacificas, abrir novas perspectivas e pôr em questão preconceitos antigos. Esta diferença nos objetivos imediatos repercute, imediatamente, na questão do grau em que os diversos temas relativos à guerra e paz são abordados. Na falta de urgência em impor uma idéia específica, os problemas podem ser abordados por uma multiplicidade de aspectos, desde o nível inter-individual até o internacional, no passado, no presente ou no futuro. Assim, de acordo com o estudo PRIO - UNESCO indicado anteriormente, mais de 30% das Instituições recenseadas realizam ou realizaram estudos sobre teoria geral dos conflitos, problemas de desenvolvimento econômico, teorias de equilíbrio de poder, diplomacia, conseqüências econômicas do desarmamento, efeitos da opinião pública sobre a política exterior, estratégia militar, técnica de controle de armamentos, papel das elites em decisões sobre política externa, processos de tomada de decisão em política externa. Alem disso mais de 30% pretendem realizar estudos sobre os fatores que contribuem à integração internacional, sobre o papel dos instrumentos de comunicação de massas na formação da opinião pública em questões de política externa, sobre as fontes e componentes do nacionalismo, além de estudos históricos sobre relações pacificas entre nações. A diferença em estilo reside em que, sem interesse ou condições de dar divulgação maciça a seus trabalhos, as atividades científicas utilizam todos os recursos que os modernos instrumentos de conhecimento podem fornecer. Dos dezoito artigos publicados em 1964 pelo Journal of Peace Research, seis contêm análise estatística sistemática, quatro utilizam instrumental matemático de difícil acesso ao leigo(3). A falta de um compromisso imediato com qualquer linha política especifica - mesmo que possa haver um compromisso a longo prazo - permite que o tom hipotético seja preferido ao dogmático e a observação, o registro e a interpretação ao julgamento das atividades políticas e conflitos existentes. A principal diferença institucional entre a política e a ciência da paz é aquela que já assinalamos: enquanto a primeira procura ser um corpo imenso dirigido por um cérebro restrito a ideias simples, a segunda se assemelha mais a grandes cérebros desprovidos de membros. A primeira conseqüência desta diferença e que as instituições dedicadas aos problemas de paz são formadas quase exclusivamente por pessoal de nível universitário. Mais de 70% das instituições recenseadas incluem especialistas em ciência política e relações internacionais em suas equipes, mais de 40% incluem especialistas em história, sociologia, psicologia social e economia. Uma outra característica, ligada a esta, é que estas instituições são em geral ligadas a universidades (41%) ou independentes (43%) E esta independência parece ser, realmente efetiva, dado que apenas 21 % recebem mais da metade de seus recursos dos respectivos governos, o que é ainda mais significativo se consideramos a independência de que gozam, em geral, os institutos universitários, mesmo quando subvencionados oficialmente. OS TEMAS Delimitar as fronteiras de uma disciplina que nasce é sempre problemático, como problemático - e não muito relevante - é discutir se a Ciência da Paz constitui, realmente, uma ciência nova, ou simplesmente o prolongamento de antigas. Na realidade, é o termo Peace Research - Pesquisas sobre a Paz - que vem caracterizando esta nova disciplina, indicando antes de tudo a área de problemas a que se refere. Vale a pena examinar com mais detalhe esta área. A primeira distinção que pode ser feita é entre Paz negativa e Paz positiva, a primeira significando tudo o que se refere à solução de conflitos, a segunda relacionada às condições de estabelecimento de colaboração e cooperação. Esta distinção dá o marco geral dos temas a que a Ciência da Paz se dedica. Como paz negativa, o que interessa antes de tudo é como pôr fim às guerras, e na base deste problema está o de se saber como e por que as guerras existem. E como as guerras são uma forma específica de conflito, as teorias gerais de conflito e resolução de conflito encontram, aqui, lugar preponderante. Conflitos podem se dar no nível dos indivíduos, dos grupos, das nações, e estudos são realizados a cada um destes três níveis, ao mesmo tempo em que - é uma tendência natural das ciências - se busca o estabelecimento de teorias gerais que possam abranger simultaneamente a todos eles. Ao lado destes estudos de tipo teórico, que se valem das técnicas de experimentação com pequenos grupos, simulação, construção de modelos seguindo as teorias dos jogos, etc., estudos de tipo mais específico são realizados sobre alguns conflitos de relevância histórica. No volume 1 do Journal of Peace Research, podemos encontrar títulos tais como "A Structural Theory of Aggression" (Johan Galtring, pag 95), "Affect and Action in International Reaction Models" (O. R. Holsti, R. A. Brody e R. C. North, pag. 170), ao lado de outros tais como "Sino-Indian Relations: A Study of Trade, Communication and Defence" (P. Smoker, pág. 65). Tão importante quanto saber como e por que os homens lutam é saber como e por que eles param de lutar. Conflitos sempre existem e em todas as sociedades, e não constituem, em si mesmo, um fato negativo(4); nem todos os conflitos levam à guerra, nem todas as guerras levam à destruição total do adversário. Os estudos de mecanismos de solução de conflito - cujo exemplo mais evidente é a institucionalização dos sistemas judiciários - ocupam um lugar teórico de máxima importância, cuja aplicação fundamental se refere à criação e estabelecimento de mecanismos e instituições que possam institucionalizar os conflitos internacionais. contemporâneos, a Organização das Nações Unidas em primeiro lugar. Um capítulo especial da solução de conflito é o relativo ao desarmamento. Além de ser um problema político, que exige uma disposição anti-belicista, o problema do desarmamento é um problema técnico de não simples solução. Como combinar a redução de armamentos com a manutenção de um equilíbrio de forças entre os adversários, de tal maneira que um não se coloque, a um dado momento, à disposição do outro? Uma solução simples seria que os dois ou mais adversários se convencessem da sinceridade dos demais - mas não seria possível realizar o desarmamento mesmo em um clima de desconfiança, por procedimentos técnicos seguros, o que daria base, posteriormente, ao relaxamento da tensão? A proposição de técnicas de combinar o sistema de inspeção, preconizado pelos Estados Unidos, com o sistema de verificação preconizado pela União Soviética, através da inspeção por áreas, é um bom exemplo da colaboração que pode ser dada. A idéia consiste simplesmente em dividir os territórios dos países em um série de áreas que seriam abertas à inspeção do adversário por sorteio Desta forma seria garantido o segredo militar nas demais áreas não sorteadas, e poder-se-ia confiar em que os países tratariam de distribuir seus armamentos de forma homogênea entre as diversas possíveis zonas de inspeção(5). Propor soluções deste tipo é uma questão de imaginação criadora, mas sua elaboração sistemática exige tratamento rigoroso. Dados dois adversários, com três linhas de ação em um conflito, como é o de se esperar que o conflito se desenvolva?
Para três estratégias S1 e dois adversários, nove possíveis soluções, que terão um valor específico para cada lado. Que fará A? Depende dos valores que A possa obter, e da percepção que A possa ter do que fará B; e reciprocamente. Definir as diversas estratégias existentes e possíveis, calcular os valores dc cada cela da matriz resultante, tentar predizer ou propor soluções para estes tipos de jogos é todo um campo imenso de estudos. Além do mais, após o primeiro jogo, a situação já será diferente, os termos do problema serão outros. Quais serão os problemas existentes em um mundo desarmado, ou desarmando-se? Estarão os Estados Unidos - ou a URSS - em condições de reagir satisfatoriamente a uma crise internacional do estágio III de um programa de desarme por eles mesmos sugerido e, hipoteticamente, adotado? O Centro de Estudos Internacionais do Instituto Tecnológico de Massachussetts (MIT) vem realizando uma série de estudos sôbre questões como esta por técnicas de simulação, e uma conclusão típica é que "in the Stage III game US residual power appeared adequate to deal with a single hemisphere crisis but US relations with "client" states elsewhere would certainly have to alter radically..."(6) Seria infantil supor que um país como os EEUU, Ou URSS, aceitariam um plano de desarme sem pensar cm todas as conseqüências que possa ter, e mostrar soluções viáveis para ambas as partes é um dos principais caminhos de obter acordo. E, além das conseqüências estratégicas, existem as conseqüências secundárias: como seria a economia em um mundo desarmado? É verdade que a economia capitalista depende da produção de armas? E a economia socialista? Que pressões um governo teria que responder, se aceitasse uma política desarmamentista? Que destino poder-se-ia dar à capacidade industrial dedicada à produção armamentista? As questões se sucedem ao infinito. Em relação à paz positiva, os problemas a estudar se referem às possibilidades de cooperação e integração internacional. Dado que é absurdo pensar que uma paz duradoura possa ser estabelecida por técnicas de manutenção de status quo em situações de atraso e subdesenvolvimento, os problemas relativos ao desenvolvimento econômico ocupam lugar primordial Quais as condições que propiciam a integração dos países subdesenvolvidos em unidades político-econômicas mais amplas, se esta integração é condição necessária para a desenvolvimento? Se o desenvolvimento exige luta política interna ou externa aos países, que estrategias permitiriam conseguir os mesmos objetivos com um mínimo de violência e um mínimo de risco à paz mundial? Se a assistência técnica e econômica dos países desenvolvidas é uma condição necessária para a desenvolvimento, como estes planos de auxílio vêm se desenvolvendo, e em que medidas são ou não eficazes? Que papel desempenham ou podem desempenhar os organismos internacionais como UNESCO, FAO, etc., nestes planos de assistência técnica? São efetivos, ou tão somente realizam a política das grandes potências? Como é possível transformá los? Que papel podem desempenhar em sua orientação e transformação os pequenos países? Etc etc Este é um quadro rápido e sumário. mas dá uma idéia dos temas a que Peace Research vem se dedicando e das possibilidades que implica. "Muito bem, tudo isto é muito lindo Mas que sentido tem este trabalho hermético de intelectuais sem poder de decisão, realizando estudos inacessíveis ao homem do povo?" Ainda que distinta da política, a Ciência da Paz tem sua política, e é a ela que dedicamos a última parte deste artigo. A POLÍTICA DA CIÊNCIA DA PAZ Apenas 16% das instituições consultadas no estudo a que nos referimos mais acima creem que as que se dedicam à Ciência da Paz devem abster-se da política. Isto reflete a fato dc que, ainda que a atividade científica, enquanto tal, é independente da participação política, não há incompatibilidade entre os dois tipos de atividades. Fora do laboratório, ou do escritório, a cientista da paz será, muito freqüentemente, um militante partidário, um escritor panfletista, um homem de governo, que procurará utilizar na prática os conhecimentos que seus estudos lhe proporcionam, ou pô-los ao conhecimento do grande público ou de responsáveis pelas tomadas de decisão política. Como fazê-lo é uma questão dc opção pessoal, de personalidade, de oportunidade. O professor Irving L. llorowitz afirmava, em uma conferência em Buenos Aires algum tempo atrás, que "a grande tarefa do cientista social em nossos dias é convencer os generais a não apertarem o botão". Amitai Etzioni, em Winning Without War, procura mostrar como o governo norte-americano poderia, sem abandonar seus objetivos e valores principais, adotar uma estratégia internacional mais efetiva, mais positiva e conduzindo à paz. Os exemplos são múltiplos. Além da política realizada em termos individuais, as instituições voltadas à Peace Research muitas vezes se atribuem e desempenham, efetivamente, o papel de conselheiros cm problemas políticos. É interessante notar que, enquanto 36% das instituições norte-americanas criadas depois de 1958 consideram que seus membros não devem participar de política (em contraste com apenas 16% no total das instituições), 43% das mesmas se atribuem o papel de assessoria política (36% para o total recenseado). Conselhos a quem? A órgãos governamentais, concluímos, ainda que os dados não o digam. Não politics, mas policy. É uma tendência tecnocrática, que indica que a ciência da paz vem se constituindo, em parte, em mais um instrumento à disposição da política dos grandes poderes, que disporão de mais este recurso para incrementar a hegemonia mundial que exercem. Esta característica se revela, também, em uma serie de temas que vêm preocupando mais e mais a muitos especialistas do campo. Problemas de assistência técnica, causas e formas de insurreição armada nos países subdesenvolvidos - e como evitá-las ou controlá-las - estudos de área (o número de latino- americanólogos, afrólogos, orientólogos, etc., cresce progressivamente na Europa e EEUU), etc. Direta ou indiretamente, dc forma explícita ou não, estes estudos contêm geralmente uma perspectiva de tipo managerial, de "como nós devemos lidar com eles" . Não é de se estranhar que os eles tendam a reagir à manipulação...Manipulação por manipulação, a pacífica é sempre melhor que a linguagem dos canhões ou dos marines. E é sempre alentador verificar o desenvolvimento desta tecnologia da paz em um mundo aonde a tecnologia da guerra, quente ou fria, física ou psicológica, assume proporções assustadoras . E este é o grande sentido político da nova ciência da Paz, um objetivo a curto e longo prazo: verificar como, e depois mostrar como a guerra deve ser abandonada não somente por imoral, por inumana, mas principalmente - o argumento que convence - por inefetiva. NÓS E A CIÊNCIA DA PAZ Por mais que a nova ciência da paz seja uma perspectiva e uma realidade promissora nos países do norte, a assimetria de desenvolvimento, ao lado de algumas características ideológicas que indicamos, constitui um tipo de ameaça para países como o Brasil. É uma doce ameaça que, levada ao extremo, nos deixaria felizes e alimentados, sob o controle e manipulação de terceiros Porque é próprio do homem buscar controlar seu próprio destino. e porque é absurdo ficar à margem deste tipo de estudos quando nós mesmos vivemos imersos em um mar de conflitos reais e potenciais, é necessário verificar as causas mais profundas desta assimetria e como seria possível invertê-la ou diminuí-la. Dois tipos de fatores podem contribuir para deter esta tendência, um inerente ao próprio desenvolvimento de Peace Research, outro em função das atitudes que possamos tomar em relação ela. O primeiro fator decorre em grande parte das características institucionais a que nos referimos mais acima Constituindo-se em instituições independentes ou universitárias, lidando com temas necessariamente internacionais, composto em sua maioria por cientistas sociais que são, como é sabido, sempre um tanto alienados en relação ao meio - no sentido em que dificilmente se integram de forma perfeita a grupos e/ou ideologias políticas - as possibilidades são altas no sentido de que Peace Research se desenvolva como uma disciplina não engajada em nenhuma política governamental específica. "( . . . ) The way to ensure a symmetric point of view (...) will probably lie in the gradual socialization of peace researches to a truly international view point where they anchor their concepts and theories in the 'health' of the international system rather than in what is good or bad for one particular nation", propõe J. Galtung como uma perspectiva para o futuro(7) Esta perspectiva aponta para a ideia da profissionalização do cientista e técnico de Paz como possuidor de um métier essencialmente internacional em sua composição, sua ética e sua base institucional. Por mais utópica que possa parecer esta ideia, ela decorre, simplesmente, de uma projeção audaciosa de algumas tendências que já hoje se manifestam. As possibilidades do estabelecimento de lealdades transnacionais, ou internacionais, são conhecidas desde os tempos de Marx, e acrescidas pelas imensas possibilidades de comunicação nos dias de hoje . Mais e mais pessoas vivem, hoje em dia, menos em um país que em um estrato internacional que ignora fronteiras e, em termos de distância social, um economista brasileiro estará muito mais próximo de um colega chileno ou norte-americano que de seu leiteiro . Além disso, o crescimento de organizações internacionais, a começar pelas Nações Unidas, e terminando pelas quase duas mil organizações internacionais não governamentais hoje existentes(8), indicam a formação de uma verdadeira mentalidade e formas de convivência internacional que podem ser exploradas e incrementadas . Esta profissionalização internacional deverá implicar, também, o estabelecimento de uma ética correspondente . Garantia do princípio de publicação de estudos realizados, recusa em participar em projetos que impliquem manipulação de terceiros, por assimetria, são elementos que podem ser partes constituintes desta ética. E, por mais que este ideal esteja colocado no futuro, sua existência como perspectiva já permite caracterizar a posição de grande parte dos que se dedicam à ciência da Paz. Por parte dos países subdesenvolvidos, a correção desta tendência de assimetria reside em que suas elites intelectuais não caiam no erro de jogar fora a água do banho e a criança, voltando as costas à ciência que se desenvolve pelos compromissos ideológicos que possa ter, ou julgá-la "demasiado desenvolvida para nós ." Este é um problema bastante mais geral. Constitui um erro perigoso, e uma atitude reacionária, supor que países como o Brasil, por serem subdesenvolvidos economicamente, devem também o ser cientificamente . Exatamente porque a ciência, em sua forma mais alta, é uma atividade de grupos reduzidos, é possível a países subdesenvolvidos - e principalmente países como o Brasil - elevá-la ao máximo, de tal maneira que o país seja capaz de encontrar soluções novas e originais para seus próprios problemas, sem necessitar de importar continuamente técnicas muitas vezes inadaptadas ou que se tornam, a curto prazo, obsoletas . E isto não se faz por um nacionalismo científico (lembremos os tempos da sociologia brasileira), mas exatamente por um cosmopolitismo que consiste em manter contato com os centros científicos mais desenvolvidos, estejam onde estiverem. Se isto é verdade para as ciências naturais, o é ainda mais para as ciências sociais, onde o relativamente baixo desenvolvimento tecnológico permite muito mais facilmente esta elevação de nível, a baixo custo. Meia dúzia de cientistas, com acesso a um computador e uma equipe de pesquisadores de campo podem constituir, facilmente, um centro de vanguarda mundial em sociologia, ciência política ou Peace Research, e isto é praticamente nada, em termos de custo, comparado aos orçamentos principescos de nossas universidades. Algumas explicações podem ser dadas de porque isto não é feito, e nos referiremos tão somente às ciências sociais. Em primeiro lugar, trata-se de um problema , simplesmente, de ignorância . Ciência se desenvolve não somente pelo estudo, mas principalmente pelo conhecimento de como o estudo se faz, de toda a tradição de trabalho sistemático que os centros científicos mais importantes apresentam O exemplo da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Minas Gerais, que não receberá este ano um só professor de outros centros, que é incapaz de reter em seus quadros, na maioria dos casos, os elementos que adquirem formação especializada no exterior ou outras partes do país - simplesmente para citar um caso que conhecemos de perto - mostra claramente como uma instituição que se pretenda científica não pode funcionar. A conseqüência é a rotina, o acomodamento a baixos níveis de exigência e cômodos níveis salariais. Em segundo lugar, trata-se da identificação errônea entre ciências sociais e ideologias políticas, que não é um apanágio exclusivo dos que confundem sociologia com socialismo. Esta identificação decorre, em grande parte, da tensão política e social em que vivemos, e que faz com que a dedicação à investigação sistemática, ao estudo a longo prazo, etc., provoque inquietudes e problemas de consciência a muitos intelectuais, atraídos a problemas imediatos de participação política. O exemplo do Departamento de Ciências Sociais, da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, que desenvolve um trabalho de alto nível científico que não é afetado, mas motivado, pelas preocupações mais gerais de seus membros, é uma exceção que confirma a regra . Um outro aspecto desta identificação errônea consiste em crer que o papel dos institutos e departamentos de Ciências Sociais é, fundamentalmente, de esclarecimento e divulgação. Em forma a caricatural, isto implicaria cm repetir, para o máximo número dc pessoas, as clássicas cifras sobre a concentração de terras, no Brasil, "e que, por isso, é necessário fazer Reforma Agrária", sem sentir-se na necessidade de conhecer mais sobre a estrutura rural brasileira, contentando-se com a indignação sentida e comunicada. A conseqüência é uma pressão sobre a ampliação de lugares e descenso de nível das Faculdades, uma crítica sistemática e global a seu caráter aristocratizante, e, em última análise, um tipo de terrorismo ideológico quase tão funesto quanto o terrorismo propriamente dito que passaram a viver nossas universidades depois de abril de 1964. A vulnerabilidade a estes terrorismos conduz à terceira explicação sobre nosso subdesenvolvimento em ciências sociais. Trata-se do fato tão conhecido da fala de tradição científica e universitária em nosso meio, do desinteresse da maioria das instituições pelo trabalho científico, da burocratização paralisadora - veja-se o exemplo já citado da Faculdade de Ciências Econômicas da U . M .G. Um olho sociologicamente treinado verá que esta falta dc tradição se traduz no fato de que o status do cientista, particularmente do cientista social, é difuso, ou seja, que ele não tem um lugar bem delimitado socialmente. Um sociólogo ou um cientista político é um ser misterioso, genial para uns, perigoso para outros, mas sempre tão indefinido que ele mesmo muitas vezes não sabe se explicar. Comparemos com o médico, de posição social reconhecida e indiscutível . Comparemos com o advogado, que mesmo estando presente a todos os problemas de prisões políticas e violências militares, nos últimos tempos, raramente foi molestado em suas atividades, rara mente seu exercício profissional foi identificado com subversão; porque todos sabem que o papel do advogado é defender os acusados. Esta indefinição do cientista social lhe provoca angústia, e o leva a optar. A opção poderá ser por definir-se claramente como político, ou como intelectual, ou escritor - que tem seu status mais claro e prestigiado entre nós - ou ligar-se às poucas instituições que lhe possam permitir um status mais preciso. Estas poucas instituições serão, em geral, de tipo internacional ou em contato estreito com grupos estrangeiros, e a conseqüência será que nosso cientista social pensará em si mesmo muito mais, como membro de uma comunidade internacional, ou de um país estrangeiro aonde reside seu grupo de referência (USA? França?) que do próprio; e seu trabalho contribuirá para aumentar ainda mais a assimetria intelectual entre o mundo desenvolvido e o subdesenvolvido, e ele se sentirá um estrangeiro em seu próprio país . Ainda que os temas que estude sejam relacionados a seu país, seu estilo, sua linguagem, seu público estarão localizados em outro marco. QUE FAZER? Diagnosticar um problema é sempre mais simples que solucioná-lo - esta é uma das fraquezas das ciências sociais. Entretanto, diagnóstico implica conhecimento, e quando conhecemos as partes que contribuem para um todo, sempre poderemos alterar o todo pela manipulação das partes . Desde que tenhamos claro, evidentemente, aonde queremos chegar. Podemos resumir em algumas proposições simples o resultado da discussão que acabamos de realizar: a) é necessário corrigir a assimetria entre o desenvolvimento da Ciência da Paz - e das ciências sociais em geral - entre os países desenvolvidos e os países subdesenvolvidos; b) esta correção não se pode fazer senão pela constituição, em países como o Brasil, de uma ciência social no mais alto nível possível, de acordo com os padrões internacionais; e) ainda que esta assimetria seja explicada por todo o contexto que caracteriza o subdesenvolvimento, sua correção não depende da superação do subdesenvolvimento, mas pode contribuir de maneira decisiva para ela. Isto é possível porque o trabalho científico é, por sua natureza, um trabalho de grupos reduzidos, e de custo baixo, principalmente no setor de ciências sociais; d) esta assimetria pode ser explicada, especificamente por três fatores:
1) a falta de contato e conhecimento com outros centros; 2) a indefinição do papel do cientista social, que se revela na confusão entre ideologia e ciência, trabalho de investigação e formação científica e militância política; 3) a falta de um lugar socialmente definido para o cientista social. O problema será resolvido pela solução destes três fatores. É claro que isto não é tão simples assim, dado que o incremento de contatos implica sempre o risco da alienação que indicamos acima, se os outros dois fatores não se resolvem concomitantemente, e a resolução destes dois é um campo aberto à discussão. Vejamos, para terminar, alguns aspectos dela. É uma questão elementar em sociologia que o lugar socialmente definido - status - é função do papel desempenhado, e que este, por sua vez, depende das expectativas orientadas para o ator, no nosso caso o cientista social . O problema não é tão simples quando as expectativas não estão claramente definidas e se contradizem, quando nosso problema é menos de conhecer um status do que criá-lo. Comecemos pelas expectativas. Uma característica da atividade científica é que ela é um investimento a longo prazo. O reconhecimento da insuficiência da análise econômica dos problemas do desenvolvimento - veja-se a grande incógnita que os economistas denominam fatores institucionais - abre caminho necessariamente ao cientista social de outros ramos, mesmo que não tenha, a curto prazo, possibilidades de responder adequadamente a uma série de questões. Este tipo de expectativa cria para o cientista social um papel técnico, mas também um papel científico, de investigações que, mesmo sem ter um impacto prático imediato, podem tê-lo a mais longo prazo. Além deste tipo de demanda, o cientista social está sujeito a um tipo de solicitação mais geral, por parte do grande público. Ele lida com problemas vividos dia a dia pelo homem do povo que não se interessa tanto por soluções técnicas quanto por respostas que o ajudem a encontrar o sentido da sociedade e do mundo em que vive. Estes tipos de demanda definem três papéis que o cientista social deve desempenhar; o papel de técnico, oferecendo soluções específicas a governos, a empresas, a partidos políticos; o papel de cientista, realizando investigações e trabalhos teóricos de acordo a padrões internacionais, e que possam dar base ao output nos outros dois papéis; e o papel de escritor, ou de intelectual, que impede que o cientista social se feche no recinto do gabinete ou da universidade, e esteja sempre em contato, por livros, jornais, revistas, conferências, com o grande público. É claro que nem todos os cientistas sociais deverão desempenhar estes três papéis ao mesmo tempo, é uma questão de personalidade, de formação, de oportunidade . Mas a existência dos três é indispensável para a configuração mais precisa de seu status. Este status deverá ser algo que possa somar estas três características. O cientista social deverá reivindicar seu direito à atividade científica ao nível mais alto, nas universidades, nos institutos de pesquisa de todos os tipos. Não deverá fazer concessões de nível quando se trate de publicações especializadas, de cursos de formação, de seminários . O contato com o público não poderá ser esquecido, mas deverá ser claramente distinguido do primeiro tipo de atividade. E, finalmente, o cientista social deverá procurar definir-se como uma profissão de utilidade técnica imediata, buscando oferecer soluções realizáveis a curto prazo por agentes específicos. Uma conseqüência desta atitude é que o cientista social não poderá ater-se exclusivamente aos grandes problemas, mas ser capaz de lidar com questões práticas de importância quotidiana. A regulamentação profissional legal é um elemento importante na definição deste status e esta regulamentação deverá incluir, necessariamente, os três tipos de papéis a que nos referimos.Concluamos. O surgimento e desenvolvimento da Ciência da Paz, nos países desenvolvidos, atrai nossa atenção para o problema mais geral do subdesenvolvimento de nossa ciência social, e é na solução deste problema que reside a possibilidade de corrigir a assimetria que ameaça agravar ainda mais nossa condição de dependência. A tese fundamental que desenvolvemos é que este é um problema de solução possível, que está nas mãos dos cientistas sociais brasileiros. Indicamos alguns caminhos possíveis de solução, que não pretendem encerrar a discussão a respeito, mas abrí-la A discussão é desejável e necessária. Mas, mais que discutir, é necessário que assumamos, imediatamente, nossos papéis e tratemos de desempenhá-los.
NOTAS:
1. Os dados são originários de respostas a questionários enviados aos endereços fornecidos pelas Comissões Nacionais de UNESCO, em resposta à solicitação do Departamento de Ciências Sociais desta Instituição. O primeiro estudo a respeito, ainda não publicado, é de Mari Holmboe Ruge Present Trends in Peace Research 1965.
2. As informações sobre os países socialistas parecem ser insuficientes; há razões para crer que o número de instituições dedicadas a Peace Research com este ou outro nome, é muito maior do que foi possível conhecer.
3. O Journal of Peace Research é publicado trimestralmente pelo Peace Research Institute de Oslo. As referências neste artigo correspondem ao volume 7, números 1 e 2, e 3/4, 1964.
4. Um estudo bastante abrangente sobre os aspectos positivos os dos conflitos é o de Lewis Coser, Las Funciones del Conflicto Social, tradução castellana do Fondo de Cultura Económica, México.
5. O desenvolvimento desta idéia pode ser encontrado na obra de Amitai Etzioni, Winning Without War, Doubleday & Co, , Inc., 1964.
6. Lincoln P. Blomfield e Barton Whaley, The Political Military Exercise, Center of International Studies, MIT, agosto de 1963 (mimeografado).
7. Johan Galtung, After the First Years - What? - Some notes on the Long-term Development of Peace Research, PRIO, Oslo, 1965 (mimeografado).
8. Yearbook of International Organizations, editado pela Union of International Associations (Bruxelas), 1962-3.
(Fim do artigo).
Publicado em Política Externa Independente, vol. 3, Rio de Janeiro, 1965, pp 109-125.
Simon Schwartzman
Pelo menos setenta instituições de tipo científico se dedicam hoje em dia, de maneira exclusiva ou preponderante, aos problemas relacionados com guerra e paz. Este é o resultado de um estudo realizado para a UNESCO pelo Instituto de Pesquisas para a Paz, de Oslo (Peace Research Institute of Oslo - PRIO)(1) evidenciando que já se pode falar, com propriedade, de uma Ciência da Paz, senão o como um resultado adquirido, pelo menos como uma atitude, uma perspectiva e um tipo de orientação em rápido progresso. Destas setenta instituições, trinta e cinco estão nos EEUU e Canadá, vinte e seis na Europa Ocidental, sete na Europa a Oriental e URSS(2), uma na América Latina (México) e uma na Ásia Trinta destas instituições foram criadas depois de 1958, o que mostra bem o caráter recente deste tipo de atividade acadêmica. É quase incrível que quase nada disto se saiba no Brasil, que em geral sempre foi expedito em acompanhar dc perto as atividades intelectuais e científicas do mundo desenvolvido. Mostrar, em suas linhas gerais, o que é esta nova Ciência da Paz, discutir o por quê ela não tem encontrado repercussão em nosso meio, as conseqüências deste fato, tentar abrir algumas perspectivas, este é o objetivo deste artigo. ERA UMA VEZ UMA POMBA BRANCA... Enquanto os meios ligados às ciências sociais no Hemisfério Norte assistem a esta efervescência, o problema da Paz, com tudo o que ele, implica, parece ter caído de moda no Hemisfério Sul, a tal ponto que mostrar-se pacifista chega a ser até vergonhoso em muitos meios. A explicação disto pode estar em parte, no fato de que a palavra Paz - e a inefável pomba branca - parecem haver, se queimado com a história dos movimentos mundiais pró- paz, e suas vicissitudes políticas. Grandemente desenvolvido nos primeiros anos da década de 50, graças ao apoio dos países e partidos comunistas, que lhe davam extensão e força, e de personalidades não comprometidas partidariamente - de Sartre a Bertrand Russel - que lhe davam amplitude, este movimento não foi capaz de subsistir ao impacto da revolução húngara, do conflito árabe-israelita, do conflito indo-chinês e tantas outras crises internacionais nas quais a definição do que significava realmente uma atitude pacifista era função, em geral, de uma tomada de posição com um ou outro bloco. Além do mais, uma das principais reivindicações dos movimentos pró-paz - a convocação de uma reunião de cúpula - foi realizada mais de, urna vez, sem os resultados milagrosos que muitos esperavam. A União Soviética trocou a expressão paz por coexistência pacifica, e os movimentos pró-paz passaram a uma vida latente, dando apenas alguns sinais de vida nas marchas anti-atômicas de Semana Santa na Inglaterra e Alemanha, nas manifestações individuais dos objetores de consciência ao serviço militar, ou ao trabalho científico de tipo militarista. Aos olhos do mundo, o pacifismo transformou-se quase em unia excentricidade de utópicos e sonhadores, quando não simplesmente loucos. Um novo alento ao movimento pró-paz parece ter surgido quando o primeiro morria, com o surgimento na arena internacional dos países da Terceira Força. A conferência de Bandung, abril 1955, marca a entrada destes países na arena mundial. A presença da tradição pacifista da Índia, a autonomia iugoslava e Indonésia, a adolescente revolução chinesa davam a nota principal. Em 1 957, era a inauguração da política chinesa das cem flores, de tão curta vida, mas que parecia indicar que também este país estava entre os que fariam tudo para pôr fim à política dc blocos, causadora da guerra fria. Poucos poderiam prever, àquela época, a situação dos dias atuais, em que os países de Bandung - China e Indonésia à frente - seriam os maiores obstáculos à colaboração que passou a ser o interesse das grandes potências. O conflito indo-chinês - com o afastamento de Krishna Menon, o mais decidido neutralista, do governo indiano - o conflito árabe-israelita, o conflito indonésio - malaio, sem falar na guerra do Vietnam - tudo isto indica que a palavra Paz entra cada vez menos no vocabulário dos países emergentes. Por comunista ou por anti-comunista, por progressista ou reacionário, falar em paz parece significar, de boa vontade, viver em um mundo dos sonhos, de má vontade fazer o jogo do adversário, seja ele qual for. Porque, efetivamente, a palavra paz não é querida em tempos de guerra, a não ser como um instrumento da própria guerra. Combater uma luta muitas vezes implica defender um status quo e, conseqüentemente alinhar-se a um dos lados, ou negar razão a ambos e ser rejeitado pelos dois. E no entanto, para quem não aceita o tipo de raciocínio segundo o qual as guerras não fazem mal aos povos, que poderão depois gozar de períodos pacíficos em que as populações crescerão novamente e que a presença de armas atômicas não altera isso, o problema da paz segue sendo básico. Mais do que uma posição de principio contra a violência, ser pacifista hoje em dia significa partir da hipótese de que a guerra atômica será, simplesmente, o fim. Nenhum artificio de raciocínio pode ocultar o fato de que uma guerra nuclear significaria uma destruição incalculável de vidas e civilização, e ninguém pode afirmar com certeza que a humanidade seria capaz de subsistir biologicamente a ela independentemente das vicissitudes políticas que a palavra paz possa ter sofrido, esta continua a ser a questão fundamental de nossos dias Ser pacifista, hoje, em dia, não pode implicar simplesmente a repetição contínua do "amai-vos uns aos outros." Os conflitos existentes são reais, muitos se dispõem a morrer por eles, e uma máxima abstrata não poderá ter o menor efeito em relação a isto. Ser pacifista implica, antes de tudo, conhecer os problemas que estão à base dos conflitos e tentar encontrar, propor e forçar soluções que reduzem ao mínimo a violência, e afastem ao máximo as possibilidades da catástrofe atômica. Daí que é necessário, ao mesmo tempo, conhecer e agir, uma ciência e uma política da paz POLÍTICA E CIÊNCIA DA PAZ Talvez porque a paz seja um problema mais sentido e desejado para os países desenvolvidos que para os subdesenvolvidos, talvez porque as ciências sociais nos países desenvolvidos estejam mais adiantadas que nos outros, talvez porque nos países desenvolvidos não existem outros grandes problemas urgentes a serem resolvidos, e a presença das armas atômicas é mais concreta - muito provavelmente por todas estas razões - o fato é que a ciência da paz vem se desenvolvendo quase que exclusivamente nestes países. Seria um erro crasso, no entanto, crer que a simples compreensão destes motivos basta para conhecer o sentido e caráter desta nova disciplina, da mesma maneira que conhecer os problemas de infância de Marx nos ensina muito pouco de marxismo. Ainda que condicionada politicamente, a atividade de tipo científico não se reduz à política, e deve ser entendida em si mesma. A melhor maneira de ver em que consiste esta ciência da paz será, exatamente, examinando suas diferenças com a política para a Paz. Esta diferença é uma questão de objetivos imediatos, de grau, de estilo, de base institucional. Como questão de objetivos imediatos, é próprio da atividade política a seleção de alguns slogans ou palavras de ordem relativamente simples, e a mobilização de grandes recursos organizacionais, governamentais, partidários, publicitários, etc., que possam convertê-los em realidade. Colocar o tema da Paz na ordem do dia é uma questão de oportunidade, a ser decidida em termos de tática política, independentemente da estratégia mais geral. É assim que, por exemplo, a política soviética pró-paz tem sido muitas vezes acusada de insincera, com o mesmo tipo de argumento com que muitos afirmam que a atitude chinesa contrária à coexistência pacífica não é, em última análise, uma posição belicista. A atividade científica, em contrapartida, menos capaz de impor soluções a curto prazo, se concentra em uma pluralidade de temas, direta ou indiretamente ligados à consecução de uma ou outra estratégia específica, e procura examinar estas estratégias em detalhe, preocupada menos em impor uma ou outra solução, e mais em examinar estas estratégias em detalhe, conhecer os mecanismos de conflito e soluções pacificas, abrir novas perspectivas e pôr em questão preconceitos antigos. Esta diferença nos objetivos imediatos repercute, imediatamente, na questão do grau em que os diversos temas relativos à guerra e paz são abordados. Na falta de urgência em impor uma idéia específica, os problemas podem ser abordados por uma multiplicidade de aspectos, desde o nível inter-individual até o internacional, no passado, no presente ou no futuro. Assim, de acordo com o estudo PRIO - UNESCO indicado anteriormente, mais de 30% das Instituições recenseadas realizam ou realizaram estudos sobre teoria geral dos conflitos, problemas de desenvolvimento econômico, teorias de equilíbrio de poder, diplomacia, conseqüências econômicas do desarmamento, efeitos da opinião pública sobre a política exterior, estratégia militar, técnica de controle de armamentos, papel das elites em decisões sobre política externa, processos de tomada de decisão em política externa. Alem disso mais de 30% pretendem realizar estudos sobre os fatores que contribuem à integração internacional, sobre o papel dos instrumentos de comunicação de massas na formação da opinião pública em questões de política externa, sobre as fontes e componentes do nacionalismo, além de estudos históricos sobre relações pacificas entre nações. A diferença em estilo reside em que, sem interesse ou condições de dar divulgação maciça a seus trabalhos, as atividades científicas utilizam todos os recursos que os modernos instrumentos de conhecimento podem fornecer. Dos dezoito artigos publicados em 1964 pelo Journal of Peace Research, seis contêm análise estatística sistemática, quatro utilizam instrumental matemático de difícil acesso ao leigo(3). A falta de um compromisso imediato com qualquer linha política especifica - mesmo que possa haver um compromisso a longo prazo - permite que o tom hipotético seja preferido ao dogmático e a observação, o registro e a interpretação ao julgamento das atividades políticas e conflitos existentes. A principal diferença institucional entre a política e a ciência da paz é aquela que já assinalamos: enquanto a primeira procura ser um corpo imenso dirigido por um cérebro restrito a ideias simples, a segunda se assemelha mais a grandes cérebros desprovidos de membros. A primeira conseqüência desta diferença e que as instituições dedicadas aos problemas de paz são formadas quase exclusivamente por pessoal de nível universitário. Mais de 70% das instituições recenseadas incluem especialistas em ciência política e relações internacionais em suas equipes, mais de 40% incluem especialistas em história, sociologia, psicologia social e economia. Uma outra característica, ligada a esta, é que estas instituições são em geral ligadas a universidades (41%) ou independentes (43%) E esta independência parece ser, realmente efetiva, dado que apenas 21 % recebem mais da metade de seus recursos dos respectivos governos, o que é ainda mais significativo se consideramos a independência de que gozam, em geral, os institutos universitários, mesmo quando subvencionados oficialmente. OS TEMAS Delimitar as fronteiras de uma disciplina que nasce é sempre problemático, como problemático - e não muito relevante - é discutir se a Ciência da Paz constitui, realmente, uma ciência nova, ou simplesmente o prolongamento de antigas. Na realidade, é o termo Peace Research - Pesquisas sobre a Paz - que vem caracterizando esta nova disciplina, indicando antes de tudo a área de problemas a que se refere. Vale a pena examinar com mais detalhe esta área. A primeira distinção que pode ser feita é entre Paz negativa e Paz positiva, a primeira significando tudo o que se refere à solução de conflitos, a segunda relacionada às condições de estabelecimento de colaboração e cooperação. Esta distinção dá o marco geral dos temas a que a Ciência da Paz se dedica. Como paz negativa, o que interessa antes de tudo é como pôr fim às guerras, e na base deste problema está o de se saber como e por que as guerras existem. E como as guerras são uma forma específica de conflito, as teorias gerais de conflito e resolução de conflito encontram, aqui, lugar preponderante. Conflitos podem se dar no nível dos indivíduos, dos grupos, das nações, e estudos são realizados a cada um destes três níveis, ao mesmo tempo em que - é uma tendência natural das ciências - se busca o estabelecimento de teorias gerais que possam abranger simultaneamente a todos eles. Ao lado destes estudos de tipo teórico, que se valem das técnicas de experimentação com pequenos grupos, simulação, construção de modelos seguindo as teorias dos jogos, etc., estudos de tipo mais específico são realizados sobre alguns conflitos de relevância histórica. No volume 1 do Journal of Peace Research, podemos encontrar títulos tais como "A Structural Theory of Aggression" (Johan Galtring, pag 95), "Affect and Action in International Reaction Models" (O. R. Holsti, R. A. Brody e R. C. North, pag. 170), ao lado de outros tais como "Sino-Indian Relations: A Study of Trade, Communication and Defence" (P. Smoker, pág. 65). Tão importante quanto saber como e por que os homens lutam é saber como e por que eles param de lutar. Conflitos sempre existem e em todas as sociedades, e não constituem, em si mesmo, um fato negativo(4); nem todos os conflitos levam à guerra, nem todas as guerras levam à destruição total do adversário. Os estudos de mecanismos de solução de conflito - cujo exemplo mais evidente é a institucionalização dos sistemas judiciários - ocupam um lugar teórico de máxima importância, cuja aplicação fundamental se refere à criação e estabelecimento de mecanismos e instituições que possam institucionalizar os conflitos internacionais. contemporâneos, a Organização das Nações Unidas em primeiro lugar. Um capítulo especial da solução de conflito é o relativo ao desarmamento. Além de ser um problema político, que exige uma disposição anti-belicista, o problema do desarmamento é um problema técnico de não simples solução. Como combinar a redução de armamentos com a manutenção de um equilíbrio de forças entre os adversários, de tal maneira que um não se coloque, a um dado momento, à disposição do outro? Uma solução simples seria que os dois ou mais adversários se convencessem da sinceridade dos demais - mas não seria possível realizar o desarmamento mesmo em um clima de desconfiança, por procedimentos técnicos seguros, o que daria base, posteriormente, ao relaxamento da tensão? A proposição de técnicas de combinar o sistema de inspeção, preconizado pelos Estados Unidos, com o sistema de verificação preconizado pela União Soviética, através da inspeção por áreas, é um bom exemplo da colaboração que pode ser dada. A idéia consiste simplesmente em dividir os territórios dos países em um série de áreas que seriam abertas à inspeção do adversário por sorteio Desta forma seria garantido o segredo militar nas demais áreas não sorteadas, e poder-se-ia confiar em que os países tratariam de distribuir seus armamentos de forma homogênea entre as diversas possíveis zonas de inspeção(5). Propor soluções deste tipo é uma questão de imaginação criadora, mas sua elaboração sistemática exige tratamento rigoroso. Dados dois adversários, com três linhas de ação em um conflito, como é o de se esperar que o conflito se desenvolva?
Para três estratégias S1 e dois adversários, nove possíveis soluções, que terão um valor específico para cada lado. Que fará A? Depende dos valores que A possa obter, e da percepção que A possa ter do que fará B; e reciprocamente. Definir as diversas estratégias existentes e possíveis, calcular os valores dc cada cela da matriz resultante, tentar predizer ou propor soluções para estes tipos de jogos é todo um campo imenso de estudos. Além do mais, após o primeiro jogo, a situação já será diferente, os termos do problema serão outros. Quais serão os problemas existentes em um mundo desarmado, ou desarmando-se? Estarão os Estados Unidos - ou a URSS - em condições de reagir satisfatoriamente a uma crise internacional do estágio III de um programa de desarme por eles mesmos sugerido e, hipoteticamente, adotado? O Centro de Estudos Internacionais do Instituto Tecnológico de Massachussetts (MIT) vem realizando uma série de estudos sôbre questões como esta por técnicas de simulação, e uma conclusão típica é que "in the Stage III game US residual power appeared adequate to deal with a single hemisphere crisis but US relations with "client" states elsewhere would certainly have to alter radically..."(6) Seria infantil supor que um país como os EEUU, Ou URSS, aceitariam um plano de desarme sem pensar cm todas as conseqüências que possa ter, e mostrar soluções viáveis para ambas as partes é um dos principais caminhos de obter acordo. E, além das conseqüências estratégicas, existem as conseqüências secundárias: como seria a economia em um mundo desarmado? É verdade que a economia capitalista depende da produção de armas? E a economia socialista? Que pressões um governo teria que responder, se aceitasse uma política desarmamentista? Que destino poder-se-ia dar à capacidade industrial dedicada à produção armamentista? As questões se sucedem ao infinito. Em relação à paz positiva, os problemas a estudar se referem às possibilidades de cooperação e integração internacional. Dado que é absurdo pensar que uma paz duradoura possa ser estabelecida por técnicas de manutenção de status quo em situações de atraso e subdesenvolvimento, os problemas relativos ao desenvolvimento econômico ocupam lugar primordial Quais as condições que propiciam a integração dos países subdesenvolvidos em unidades político-econômicas mais amplas, se esta integração é condição necessária para a desenvolvimento? Se o desenvolvimento exige luta política interna ou externa aos países, que estrategias permitiriam conseguir os mesmos objetivos com um mínimo de violência e um mínimo de risco à paz mundial? Se a assistência técnica e econômica dos países desenvolvidas é uma condição necessária para a desenvolvimento, como estes planos de auxílio vêm se desenvolvendo, e em que medidas são ou não eficazes? Que papel desempenham ou podem desempenhar os organismos internacionais como UNESCO, FAO, etc., nestes planos de assistência técnica? São efetivos, ou tão somente realizam a política das grandes potências? Como é possível transformá los? Que papel podem desempenhar em sua orientação e transformação os pequenos países? Etc etc Este é um quadro rápido e sumário. mas dá uma idéia dos temas a que Peace Research vem se dedicando e das possibilidades que implica. "Muito bem, tudo isto é muito lindo Mas que sentido tem este trabalho hermético de intelectuais sem poder de decisão, realizando estudos inacessíveis ao homem do povo?" Ainda que distinta da política, a Ciência da Paz tem sua política, e é a ela que dedicamos a última parte deste artigo. A POLÍTICA DA CIÊNCIA DA PAZ Apenas 16% das instituições consultadas no estudo a que nos referimos mais acima creem que as que se dedicam à Ciência da Paz devem abster-se da política. Isto reflete a fato dc que, ainda que a atividade científica, enquanto tal, é independente da participação política, não há incompatibilidade entre os dois tipos de atividades. Fora do laboratório, ou do escritório, a cientista da paz será, muito freqüentemente, um militante partidário, um escritor panfletista, um homem de governo, que procurará utilizar na prática os conhecimentos que seus estudos lhe proporcionam, ou pô-los ao conhecimento do grande público ou de responsáveis pelas tomadas de decisão política. Como fazê-lo é uma questão dc opção pessoal, de personalidade, de oportunidade. O professor Irving L. llorowitz afirmava, em uma conferência em Buenos Aires algum tempo atrás, que "a grande tarefa do cientista social em nossos dias é convencer os generais a não apertarem o botão". Amitai Etzioni, em Winning Without War, procura mostrar como o governo norte-americano poderia, sem abandonar seus objetivos e valores principais, adotar uma estratégia internacional mais efetiva, mais positiva e conduzindo à paz. Os exemplos são múltiplos. Além da política realizada em termos individuais, as instituições voltadas à Peace Research muitas vezes se atribuem e desempenham, efetivamente, o papel de conselheiros cm problemas políticos. É interessante notar que, enquanto 36% das instituições norte-americanas criadas depois de 1958 consideram que seus membros não devem participar de política (em contraste com apenas 16% no total das instituições), 43% das mesmas se atribuem o papel de assessoria política (36% para o total recenseado). Conselhos a quem? A órgãos governamentais, concluímos, ainda que os dados não o digam. Não politics, mas policy. É uma tendência tecnocrática, que indica que a ciência da paz vem se constituindo, em parte, em mais um instrumento à disposição da política dos grandes poderes, que disporão de mais este recurso para incrementar a hegemonia mundial que exercem. Esta característica se revela, também, em uma serie de temas que vêm preocupando mais e mais a muitos especialistas do campo. Problemas de assistência técnica, causas e formas de insurreição armada nos países subdesenvolvidos - e como evitá-las ou controlá-las - estudos de área (o número de latino- americanólogos, afrólogos, orientólogos, etc., cresce progressivamente na Europa e EEUU), etc. Direta ou indiretamente, dc forma explícita ou não, estes estudos contêm geralmente uma perspectiva de tipo managerial, de "como nós devemos lidar com eles" . Não é de se estranhar que os eles tendam a reagir à manipulação...Manipulação por manipulação, a pacífica é sempre melhor que a linguagem dos canhões ou dos marines. E é sempre alentador verificar o desenvolvimento desta tecnologia da paz em um mundo aonde a tecnologia da guerra, quente ou fria, física ou psicológica, assume proporções assustadoras . E este é o grande sentido político da nova ciência da Paz, um objetivo a curto e longo prazo: verificar como, e depois mostrar como a guerra deve ser abandonada não somente por imoral, por inumana, mas principalmente - o argumento que convence - por inefetiva. NÓS E A CIÊNCIA DA PAZ Por mais que a nova ciência da paz seja uma perspectiva e uma realidade promissora nos países do norte, a assimetria de desenvolvimento, ao lado de algumas características ideológicas que indicamos, constitui um tipo de ameaça para países como o Brasil. É uma doce ameaça que, levada ao extremo, nos deixaria felizes e alimentados, sob o controle e manipulação de terceiros Porque é próprio do homem buscar controlar seu próprio destino. e porque é absurdo ficar à margem deste tipo de estudos quando nós mesmos vivemos imersos em um mar de conflitos reais e potenciais, é necessário verificar as causas mais profundas desta assimetria e como seria possível invertê-la ou diminuí-la. Dois tipos de fatores podem contribuir para deter esta tendência, um inerente ao próprio desenvolvimento de Peace Research, outro em função das atitudes que possamos tomar em relação ela. O primeiro fator decorre em grande parte das características institucionais a que nos referimos mais acima Constituindo-se em instituições independentes ou universitárias, lidando com temas necessariamente internacionais, composto em sua maioria por cientistas sociais que são, como é sabido, sempre um tanto alienados en relação ao meio - no sentido em que dificilmente se integram de forma perfeita a grupos e/ou ideologias políticas - as possibilidades são altas no sentido de que Peace Research se desenvolva como uma disciplina não engajada em nenhuma política governamental específica. "( . . . ) The way to ensure a symmetric point of view (...) will probably lie in the gradual socialization of peace researches to a truly international view point where they anchor their concepts and theories in the 'health' of the international system rather than in what is good or bad for one particular nation", propõe J. Galtung como uma perspectiva para o futuro(7) Esta perspectiva aponta para a ideia da profissionalização do cientista e técnico de Paz como possuidor de um métier essencialmente internacional em sua composição, sua ética e sua base institucional. Por mais utópica que possa parecer esta ideia, ela decorre, simplesmente, de uma projeção audaciosa de algumas tendências que já hoje se manifestam. As possibilidades do estabelecimento de lealdades transnacionais, ou internacionais, são conhecidas desde os tempos de Marx, e acrescidas pelas imensas possibilidades de comunicação nos dias de hoje . Mais e mais pessoas vivem, hoje em dia, menos em um país que em um estrato internacional que ignora fronteiras e, em termos de distância social, um economista brasileiro estará muito mais próximo de um colega chileno ou norte-americano que de seu leiteiro . Além disso, o crescimento de organizações internacionais, a começar pelas Nações Unidas, e terminando pelas quase duas mil organizações internacionais não governamentais hoje existentes(8), indicam a formação de uma verdadeira mentalidade e formas de convivência internacional que podem ser exploradas e incrementadas . Esta profissionalização internacional deverá implicar, também, o estabelecimento de uma ética correspondente . Garantia do princípio de publicação de estudos realizados, recusa em participar em projetos que impliquem manipulação de terceiros, por assimetria, são elementos que podem ser partes constituintes desta ética. E, por mais que este ideal esteja colocado no futuro, sua existência como perspectiva já permite caracterizar a posição de grande parte dos que se dedicam à ciência da Paz. Por parte dos países subdesenvolvidos, a correção desta tendência de assimetria reside em que suas elites intelectuais não caiam no erro de jogar fora a água do banho e a criança, voltando as costas à ciência que se desenvolve pelos compromissos ideológicos que possa ter, ou julgá-la "demasiado desenvolvida para nós ." Este é um problema bastante mais geral. Constitui um erro perigoso, e uma atitude reacionária, supor que países como o Brasil, por serem subdesenvolvidos economicamente, devem também o ser cientificamente . Exatamente porque a ciência, em sua forma mais alta, é uma atividade de grupos reduzidos, é possível a países subdesenvolvidos - e principalmente países como o Brasil - elevá-la ao máximo, de tal maneira que o país seja capaz de encontrar soluções novas e originais para seus próprios problemas, sem necessitar de importar continuamente técnicas muitas vezes inadaptadas ou que se tornam, a curto prazo, obsoletas . E isto não se faz por um nacionalismo científico (lembremos os tempos da sociologia brasileira), mas exatamente por um cosmopolitismo que consiste em manter contato com os centros científicos mais desenvolvidos, estejam onde estiverem. Se isto é verdade para as ciências naturais, o é ainda mais para as ciências sociais, onde o relativamente baixo desenvolvimento tecnológico permite muito mais facilmente esta elevação de nível, a baixo custo. Meia dúzia de cientistas, com acesso a um computador e uma equipe de pesquisadores de campo podem constituir, facilmente, um centro de vanguarda mundial em sociologia, ciência política ou Peace Research, e isto é praticamente nada, em termos de custo, comparado aos orçamentos principescos de nossas universidades. Algumas explicações podem ser dadas de porque isto não é feito, e nos referiremos tão somente às ciências sociais. Em primeiro lugar, trata-se de um problema , simplesmente, de ignorância . Ciência se desenvolve não somente pelo estudo, mas principalmente pelo conhecimento de como o estudo se faz, de toda a tradição de trabalho sistemático que os centros científicos mais importantes apresentam O exemplo da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade de Minas Gerais, que não receberá este ano um só professor de outros centros, que é incapaz de reter em seus quadros, na maioria dos casos, os elementos que adquirem formação especializada no exterior ou outras partes do país - simplesmente para citar um caso que conhecemos de perto - mostra claramente como uma instituição que se pretenda científica não pode funcionar. A conseqüência é a rotina, o acomodamento a baixos níveis de exigência e cômodos níveis salariais. Em segundo lugar, trata-se da identificação errônea entre ciências sociais e ideologias políticas, que não é um apanágio exclusivo dos que confundem sociologia com socialismo. Esta identificação decorre, em grande parte, da tensão política e social em que vivemos, e que faz com que a dedicação à investigação sistemática, ao estudo a longo prazo, etc., provoque inquietudes e problemas de consciência a muitos intelectuais, atraídos a problemas imediatos de participação política. O exemplo do Departamento de Ciências Sociais, da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, que desenvolve um trabalho de alto nível científico que não é afetado, mas motivado, pelas preocupações mais gerais de seus membros, é uma exceção que confirma a regra . Um outro aspecto desta identificação errônea consiste em crer que o papel dos institutos e departamentos de Ciências Sociais é, fundamentalmente, de esclarecimento e divulgação. Em forma a caricatural, isto implicaria cm repetir, para o máximo número dc pessoas, as clássicas cifras sobre a concentração de terras, no Brasil, "e que, por isso, é necessário fazer Reforma Agrária", sem sentir-se na necessidade de conhecer mais sobre a estrutura rural brasileira, contentando-se com a indignação sentida e comunicada. A conseqüência é uma pressão sobre a ampliação de lugares e descenso de nível das Faculdades, uma crítica sistemática e global a seu caráter aristocratizante, e, em última análise, um tipo de terrorismo ideológico quase tão funesto quanto o terrorismo propriamente dito que passaram a viver nossas universidades depois de abril de 1964. A vulnerabilidade a estes terrorismos conduz à terceira explicação sobre nosso subdesenvolvimento em ciências sociais. Trata-se do fato tão conhecido da fala de tradição científica e universitária em nosso meio, do desinteresse da maioria das instituições pelo trabalho científico, da burocratização paralisadora - veja-se o exemplo já citado da Faculdade de Ciências Econômicas da U . M .G. Um olho sociologicamente treinado verá que esta falta dc tradição se traduz no fato de que o status do cientista, particularmente do cientista social, é difuso, ou seja, que ele não tem um lugar bem delimitado socialmente. Um sociólogo ou um cientista político é um ser misterioso, genial para uns, perigoso para outros, mas sempre tão indefinido que ele mesmo muitas vezes não sabe se explicar. Comparemos com o médico, de posição social reconhecida e indiscutível . Comparemos com o advogado, que mesmo estando presente a todos os problemas de prisões políticas e violências militares, nos últimos tempos, raramente foi molestado em suas atividades, rara mente seu exercício profissional foi identificado com subversão; porque todos sabem que o papel do advogado é defender os acusados. Esta indefinição do cientista social lhe provoca angústia, e o leva a optar. A opção poderá ser por definir-se claramente como político, ou como intelectual, ou escritor - que tem seu status mais claro e prestigiado entre nós - ou ligar-se às poucas instituições que lhe possam permitir um status mais preciso. Estas poucas instituições serão, em geral, de tipo internacional ou em contato estreito com grupos estrangeiros, e a conseqüência será que nosso cientista social pensará em si mesmo muito mais, como membro de uma comunidade internacional, ou de um país estrangeiro aonde reside seu grupo de referência (USA? França?) que do próprio; e seu trabalho contribuirá para aumentar ainda mais a assimetria intelectual entre o mundo desenvolvido e o subdesenvolvido, e ele se sentirá um estrangeiro em seu próprio país . Ainda que os temas que estude sejam relacionados a seu país, seu estilo, sua linguagem, seu público estarão localizados em outro marco. QUE FAZER? Diagnosticar um problema é sempre mais simples que solucioná-lo - esta é uma das fraquezas das ciências sociais. Entretanto, diagnóstico implica conhecimento, e quando conhecemos as partes que contribuem para um todo, sempre poderemos alterar o todo pela manipulação das partes . Desde que tenhamos claro, evidentemente, aonde queremos chegar. Podemos resumir em algumas proposições simples o resultado da discussão que acabamos de realizar: a) é necessário corrigir a assimetria entre o desenvolvimento da Ciência da Paz - e das ciências sociais em geral - entre os países desenvolvidos e os países subdesenvolvidos; b) esta correção não se pode fazer senão pela constituição, em países como o Brasil, de uma ciência social no mais alto nível possível, de acordo com os padrões internacionais; e) ainda que esta assimetria seja explicada por todo o contexto que caracteriza o subdesenvolvimento, sua correção não depende da superação do subdesenvolvimento, mas pode contribuir de maneira decisiva para ela. Isto é possível porque o trabalho científico é, por sua natureza, um trabalho de grupos reduzidos, e de custo baixo, principalmente no setor de ciências sociais; d) esta assimetria pode ser explicada, especificamente por três fatores:
1) a falta de contato e conhecimento com outros centros; 2) a indefinição do papel do cientista social, que se revela na confusão entre ideologia e ciência, trabalho de investigação e formação científica e militância política; 3) a falta de um lugar socialmente definido para o cientista social. O problema será resolvido pela solução destes três fatores. É claro que isto não é tão simples assim, dado que o incremento de contatos implica sempre o risco da alienação que indicamos acima, se os outros dois fatores não se resolvem concomitantemente, e a resolução destes dois é um campo aberto à discussão. Vejamos, para terminar, alguns aspectos dela. É uma questão elementar em sociologia que o lugar socialmente definido - status - é função do papel desempenhado, e que este, por sua vez, depende das expectativas orientadas para o ator, no nosso caso o cientista social . O problema não é tão simples quando as expectativas não estão claramente definidas e se contradizem, quando nosso problema é menos de conhecer um status do que criá-lo. Comecemos pelas expectativas. Uma característica da atividade científica é que ela é um investimento a longo prazo. O reconhecimento da insuficiência da análise econômica dos problemas do desenvolvimento - veja-se a grande incógnita que os economistas denominam fatores institucionais - abre caminho necessariamente ao cientista social de outros ramos, mesmo que não tenha, a curto prazo, possibilidades de responder adequadamente a uma série de questões. Este tipo de expectativa cria para o cientista social um papel técnico, mas também um papel científico, de investigações que, mesmo sem ter um impacto prático imediato, podem tê-lo a mais longo prazo. Além deste tipo de demanda, o cientista social está sujeito a um tipo de solicitação mais geral, por parte do grande público. Ele lida com problemas vividos dia a dia pelo homem do povo que não se interessa tanto por soluções técnicas quanto por respostas que o ajudem a encontrar o sentido da sociedade e do mundo em que vive. Estes tipos de demanda definem três papéis que o cientista social deve desempenhar; o papel de técnico, oferecendo soluções específicas a governos, a empresas, a partidos políticos; o papel de cientista, realizando investigações e trabalhos teóricos de acordo a padrões internacionais, e que possam dar base ao output nos outros dois papéis; e o papel de escritor, ou de intelectual, que impede que o cientista social se feche no recinto do gabinete ou da universidade, e esteja sempre em contato, por livros, jornais, revistas, conferências, com o grande público. É claro que nem todos os cientistas sociais deverão desempenhar estes três papéis ao mesmo tempo, é uma questão de personalidade, de formação, de oportunidade . Mas a existência dos três é indispensável para a configuração mais precisa de seu status. Este status deverá ser algo que possa somar estas três características. O cientista social deverá reivindicar seu direito à atividade científica ao nível mais alto, nas universidades, nos institutos de pesquisa de todos os tipos. Não deverá fazer concessões de nível quando se trate de publicações especializadas, de cursos de formação, de seminários . O contato com o público não poderá ser esquecido, mas deverá ser claramente distinguido do primeiro tipo de atividade. E, finalmente, o cientista social deverá procurar definir-se como uma profissão de utilidade técnica imediata, buscando oferecer soluções realizáveis a curto prazo por agentes específicos. Uma conseqüência desta atitude é que o cientista social não poderá ater-se exclusivamente aos grandes problemas, mas ser capaz de lidar com questões práticas de importância quotidiana. A regulamentação profissional legal é um elemento importante na definição deste status e esta regulamentação deverá incluir, necessariamente, os três tipos de papéis a que nos referimos.Concluamos. O surgimento e desenvolvimento da Ciência da Paz, nos países desenvolvidos, atrai nossa atenção para o problema mais geral do subdesenvolvimento de nossa ciência social, e é na solução deste problema que reside a possibilidade de corrigir a assimetria que ameaça agravar ainda mais nossa condição de dependência. A tese fundamental que desenvolvemos é que este é um problema de solução possível, que está nas mãos dos cientistas sociais brasileiros. Indicamos alguns caminhos possíveis de solução, que não pretendem encerrar a discussão a respeito, mas abrí-la A discussão é desejável e necessária. Mas, mais que discutir, é necessário que assumamos, imediatamente, nossos papéis e tratemos de desempenhá-los.
NOTAS:
1. Os dados são originários de respostas a questionários enviados aos endereços fornecidos pelas Comissões Nacionais de UNESCO, em resposta à solicitação do Departamento de Ciências Sociais desta Instituição. O primeiro estudo a respeito, ainda não publicado, é de Mari Holmboe Ruge Present Trends in Peace Research 1965.
2. As informações sobre os países socialistas parecem ser insuficientes; há razões para crer que o número de instituições dedicadas a Peace Research com este ou outro nome, é muito maior do que foi possível conhecer.
3. O Journal of Peace Research é publicado trimestralmente pelo Peace Research Institute de Oslo. As referências neste artigo correspondem ao volume 7, números 1 e 2, e 3/4, 1964.
4. Um estudo bastante abrangente sobre os aspectos positivos os dos conflitos é o de Lewis Coser, Las Funciones del Conflicto Social, tradução castellana do Fondo de Cultura Económica, México.
5. O desenvolvimento desta idéia pode ser encontrado na obra de Amitai Etzioni, Winning Without War, Doubleday & Co, , Inc., 1964.
6. Lincoln P. Blomfield e Barton Whaley, The Political Military Exercise, Center of International Studies, MIT, agosto de 1963 (mimeografado).
7. Johan Galtung, After the First Years - What? - Some notes on the Long-term Development of Peace Research, PRIO, Oslo, 1965 (mimeografado).
8. Yearbook of International Organizations, editado pela Union of International Associations (Bruxelas), 1962-3.
(Fim do artigo).
Publicado em Política Externa Independente, vol. 3, Rio de Janeiro, 1965, pp 109-125.
Assinar:
Postagens (Atom)
